O Brexit poderia impulsionar os exportadores de azeite?

Se o Reino Unido adotar um “modelo comercial da Nova Zelândia” para conseguir acordos mais acessíveis para seus consumidores, isso poderá ter um impacto significativo sobre os exportadores de azeite de oliva, que têm enfrentado dificuldades ao exportar para países da União Europeia.

No final de março, a ministra britânica Theresa May acionou oficialmente o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, dando início ao processo de negociação de dois anos para a saída do Reino Unido da União Europeia — ou, como é mais comumente conhecido, o Brexit.

A medida sinaliza uma mudança fundamental na forma como a UE e a Grã-Bretanha conduzirão o comércio agora e no futuro. Isso não só afetará os acordos comerciais entre o Reino Unido e a UE (permitindo que o Reino Unido venda livremente mercadorias aos países da UE sem incorrer em impostos de importação adicionais), mas também deverá ter um impacto enorme nas importações de alimentos, o que poderia criar novas oportunidades comerciais para produtores e exportadores de azeite localizados fora da UE.

Atualmente, o Reino Unido depende fortemente das importações de alimentos, com cerca de 27% de todos os alimentos consumidos no país (em valor) e 40% de todos os produtos frescos provenientes da UE. No total, em 2016, foram importados para o Reino Unido 47,5 bilhões de libras (60,8 bilhões de dólares) em alimentos e produtos agrícolas, dos quais mais de 70% vieram da UE. É uma demanda que o próprio Reino Unido não consegue suprir, com apenas 164.000 hectares de terras cultiváveis.

Graças ao Brexit, estima-se que os preços dos produtos importados subirão pelo menos 8%, com os preços de itens como o azeite de oliva previstos para subir em até 20%, devido ao fato de que produtores em países como Itália e Grécia têm enfrentado safras ruins nos últimos meses. É improvável que esse aumento de preços mude, apesar de quaisquer novos acordos comerciais firmados entre a UE e o Reino Unido, devido aos onerosos e intensificados controles de fronteira e alfandegários que o Brexit exigirá.

A Rabobank, empresa bancária multinacional holandesa especializada em financiamento do setor agroalimentar, sugeriu que uma solução poderia ser encontrada se o Reino Unido adotasse um “modelo comercial ao estilo da Nova Zelândia”, o que implicaria a eliminação total das tarifas de importação de alimentos, abrindo o mercado a exportadores fora da Europa que possam oferecer aos clientes britânicos produtos similares a um preço mais favorável.

Uma das áreas de importação onde isso poderia ocorrer é o azeite de oliva, com o deputado britânico e enviado comercial do primeiro-ministro para Marrocos e Tunísia, Andrew Murrison, sugerindo até mesmo que países menores com capacidade de exportação (como a Tunísia) poderiam ser a chave para uma fonte de azeite de oliva mais facilmente disponível e a preços competitivos para os consumidores britânicos.

Nos últimos anos, a Tunísia ultrapassou vários países europeus na produção de azeite e, embora a UE tenha atualmente isentado de impostos até 35.000 toneladas de importações de azeite até o final do ano, essa medida não foi bem recebida pelos agricultores europeus, muitos dos quais temem que a introdução de uma fonte de azeite mais barata no mercado da UE prejudique os produtores locais.

Se o Reino Unido decidir adotar uma abordagem de mercado mais livre, isso poderá ser uma má notícia para os exportadores de azeite da UE, que perderão seu acesso preferencial aos compradores britânicos por meio do mercado único.

Outros países produtores de azeite, como a Austrália, também poderão se beneficiar do Brexit, já que os agricultores locais vinham reclamando que os rigorosos requisitos de rotulagem e comercialização para a exportação de azeite (bem como os subsídios e a proteção tarifária dos produtos europeus) tornavam a venda para os mercados da UE um desafio significativo.