El País: O “Golpe do Azeite”

A consolidação no setor de engarrafamento é a responsável pelo grave desequilíbrio na cadeia de valor da indústria do azeite na Espanha, informou hoje o jornal espanhol.

Por Julie Butler
, colaboradora do Olive Oil Times | Reportagem de Barcelona

Uma fraude em grande escala envolvendo a venda de azeite de qualidade inferior como azeite extravirgem é o tema central de uma matéria publicada hoje, domingo, 5 de dezembro, no jornal espanhol El País.

Sob uma manchete equivalente a “O Golpe do Azeite”, Ginés Donaire relata que a análise de 50 lotes vendidos como azeite extravirgem na Andaluzia, no sul da Espanha, revelou que metade deles era, na verdade, de qualidade inferior.

Atualmente, o mercado espanhol está mais preocupado com a quantidade do que com a qualidade. — El País

Autoridades andaluzas foram levadas a realizar a inspeção devido ao
preço “extraordinariamente baixo” de alguns azeites extravirgens vendidos na região. Elas estão investigando mais a fundo antes de divulgar os nomes das empresas supostamente responsáveis pela rotulagem fraudulenta.

Embora se afirme que o azeite de qualidade inferior não represente perigo para a saúde dos consumidores, o setor de azeite de oliva da Espanha está muito preocupado com os danos à sua reputação e com a perda de confiança do público.

Consuelo Ariza, engenheira agrônoma da Asaja-Córdoba, uma associação agrícola, disse ao El País que, atualmente, metade do azeite extravirgem vendido nos maiores supermercados da Espanha é da variedade de marca própria. Esses supermercados vendem esse azeite com prejuízo para atrair clientes, compensando o custo com as margens de lucro de outros produtos. A situação não é nada trivial, disse ela, considerando que nove em cada dez garrafas de azeite na Espanha são vendidas nesses grandes supermercados.

O El País afirma que há um grande desequilíbrio na cadeia de valor da indústria de azeite da Espanha, e um fator-chave é que o setor de engarrafamento se tornou altamente concentrado. Pouco mais de vinte empresas engarrafam 80% da produção nacional, e as principais também dominam a distribuição.

O escândalo da rotulagem é apenas mais um desafio para os produtores de azeite espanhóis, que já enfrentam dificuldades e que disseram ao El País que o azeite a preços reduzidos estava tornando a produção cada vez menos lucrativa para eles.

A produção, no entanto, está aumentando na Espanha, com foco no cultivo intensivo, assim como em outros países, incluindo Portugal, Marrocos e Argentina. Algumas empresas espanholas estão aproveitando os incentivos oferecidos pelo governo marroquino, que pretende dobrar o número de hectares dedicados ao cultivo de oliveiras no país até 2020.

A descoberta da fraude coincidiu com o início, nesta semana, da colheita da azeitona na Espanha. Mariano Pérez Claver, presidente da SOS, uma das principais engarrafadoras e distribuidoras de azeite espanholas, afirmou que este é um excelente ano e que está otimista quanto ao aumento constante e contínuo das exportações. “O Brasil e os Estados Unidos são os mercados que, em
nossa opinião, apresentam maior potencial de crescimento.”

Mas o El País encerra com uma nota de alerta, afirmando que o mercado espanhol está atualmente “mais preocupado com a quantidade do que com a qualidade” e enfrenta uma “grande incógnita” a partir de 2013, quando a UE deverá rever a concessão de mais de 1 bilhão de euros (US$ 1,3 bilhão) em subsídios agrícolas anuais aos olivicultores espanhóis. “O futuro do azeite extravirgem está em jogo”, conclui o artigo.