Uma aula “interativa” sobre fraudes envolvendo azeite de oliva
A simplificação excessiva de temas complexos para atender a um público com pouca capacidade de concentração pode, muitas vezes, acabar sendo apenas mais desinformação.
Os infográficos e os chamados “conteúdos interativos” têm como objetivo apresentar assuntos complexos com simplicidade estética. Muitas vezes, porém, essa beleza tem um custo. Assim como as limitações informativas das postagens de 140 caracteres no Twitter, esses infográficos deslizáveis deixam os leitores com uma compreensão incompleta e, frequentemente, imprecisa de temas que merecem uma análise mais aprofundada.
Ontem, o New York Times publicou uma apresentação de slides intitulada “Extra Virgin Suicide”, que apresentava 15 cartões sobre o processo de adulteração em grande escala na indústria de azeite de oliva na Itália.
Veja também: Linha do tempo do infográfico sobre fraude no azeite do NY TimesHoras após a publicação, pedi a quatro pessoas em um jantar que percorressem a matéria do Times no meu celular e me dissessem qual achavam que era a “conclusão” do artigo. Eis o que disseram:
- “Não compre azeite italiano.”
- “Todo mundo no ramo do azeite de oliva é um vigarista.”
- “Isso me dá vontade de usar outro óleo, como o de semente de uva.”
- “Eu não fazia ideia de que a maior parte do azeite é adulterada com produtos químicos. Isso me deixa revoltado.”
Embora o segundo slide da apresentação contenha o qualificador crítico “muito” azeite italiano, alguns leitores ficaram com a impressão de que todos os produtores italianos trabalham dessa maneira.
Um dos cartões da série dizia: “aproximadamente 69% do azeite à venda nos EUA é adulterado”. Presumivelmente, isso se referia ao estudo da UC Davis de 2010, que constatou que amostras de dez marcas importadas rotuladas como extra-virgem em três supermercados da Califórnia (o que não é exatamente uma amostragem nacional) estavam abaixo do padrão — não que tivessem sido intencionalmente “adulteradas”.

O artigo cita Tom Mueller, autor de “Extra Virginity”, como fonte.
O Times aplica uma definição vaga ao termo “interativo”, aparentemente referindo-se à forma como podemos clicar de um slide para o outro e voltar se quisermos. Não há como os leitores realmente comentarem a matéria (e certamente haveria comentários).
Nos últimos anos, consumidores perplexos têm sido bombardeados por mensagens confusas de defensores do azeite de oliva e por campanhas negativas de grupos de produtores em sua busca fervorosa por participação no mercado.
Mensagens simples e informativas sobre a qualidade, os benefícios e os usos do azeite acabarão por esclarecer a confusão e promover um maior consumo desse alimento vital e saudável.
No entanto, nos esforços para resumir um tema tão complicado para um público com tempo de atenção cada vez mais curto, existe o risco de que a simplificação excessiva possa disfarçar o que muitas vezes é apenas mais desinformação.
Linha do tempo da infografia sobre fraudes no azeite de oliva do The New York Times