França coloca em dúvida acordo comercial entre a UE e o Mercosul, enquanto agricultores se opõem
A França classificou o acordo comercial entre a UE e o Mercosul como “incompleto”, levantando novas dúvidas sobre o acordo há muito negociado, enquanto agricultores de toda a Europa alertam para a concorrência desleal da América do Sul.
O futuro de um acordo de livre comércio histórico entre a União Europeia, composta por 27 países, e quatro nações do Mercosul ficou em dúvida depois que a França classificou o acordo como “incompleto”.
O Acordo de Parceria UE-Mercosul, cuja negociação levou 25 anos, criaria a maior área de livre comércio do mundo, conectando os 450 milhões de consumidores da União Europeia com 270 milhões de pessoas na Argentina, no Brasil, no Paraguai e no Uruguai.
Uma vez aprovado pelas 27 capitais da UE, o acordo eliminaria gradualmente as tarifas sobre quase todos os produtos manufaturados e agrícolas, incluindo azeite de oliva e azeitonas de mesa, ao longo de um período de 15 anos.
No entanto, o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, afirmou que a França não poderia aprovar o acordo até que “elementos concretos e precisos” fossem implementados para abordar as preocupações levantadas pelos agricultores.
“É por isso que a França está pedindo que as próximas etapas em dezembro sejam adiadas, para continuar o trabalho e obter proteções legítimas para nossa agricultura europeia”, informou o gabinete de Lecornu.
À medida que as negociações se aproximavam da conclusão, a oposição dos agricultores europeus se intensificou, com grupos de produtores alertando que os custos de produção mais baixos na Argentina e no Brasil poderiam prejudicar a agricultura doméstica.
Em resposta, o Parlamento Europeu deve votar esta semana uma proposta para introduzir um mecanismo de salvaguarda vinculativo que permitiria a reimposição de tarifas caso os agricultores europeus fossem prejudicados. Os legisladores também estão considerando uma emenda separada para proibir a importação de alimentos que não cumpram os padrões de produção da UE.
A Comissão Europeia alertou que a adoção dessas medidas exigiria que o acordo fosse reenviado às capitais sul-americanas para nova aprovação. “Se não assinarmos o Mercosul nos próximos dias, ele estará morto”, disse um diplomata europeu ao Financial Times.
Apesar da incerteza, os produtores e exportadores de azeite na Europa têm, em grande parte, acolhido o acordo com satisfação. O apoio tem sido particularmente forte na Espanha, onde o azeite figurou entre as principais exportações agrícolas do país para os quatro países do Mercosul em 2024.
Carlos Cuerpo, ministro da Economia, Comércio e Empresa da Espanha, estimou que as exportações de azeite para os países do Mercosul poderiam aumentar de 40% a 50% assim que o acordo for totalmente implementado.
Dados do Banco Mundial mostram que a União Europeia exportou 52.300 toneladas métricas de azeite virgem e extravirgem para os quatro países do Mercosul em 2024, com um valor total de US$ 578 milhões.
De acordo com números separados do Banco Mundial, a Argentina aplica atualmente uma tarifa de 31,5% sobre todas as importações de azeite extravirgem, enquanto o Paraguai e o Uruguai cobram um imposto de 9%.
Os primeiros indícios de como o acordo poderá afetar os exportadores europeus podem surgir no Brasil, que eliminou as tarifas sobre o azeite de oliva e outras importações de alimentos no início de 2025, em um esforço para conter os preços ao consumidor. As primeiras remessas da safra 2025/26 estarão entre as primeiras a entrar no país isentas de tarifas.
Enquanto os exportadores de Portugal, Espanha e Itália acolheram o acordo com satisfação, muitos produtores sul-americanos de azeite o veem com apreensão.
Eles compartilham as preocupações expressas pelos agricultores europeus, alertando que os custos de produção mais baixos da Europa poderiam dar aos azeites importados uma vantagem decisiva sobre os produtores locais.
“Se um acordo fosse alcançado entre a Comunidade Europeia e o Mercosul, seria um desafio e algo que não seria muito favorável para o nosso setor”, disse Miguel Zuccardi, chefe de produção de azeite da Familia Zuccardi, com sede na Argentina, ao Olive Oil Times no final de 2024.
Os produtores do Uruguai também deram o alarme, observando que grandes engarrafadoras espanholas e italianas já competem agressivamente em termos de preço nos supermercados e canais de varejo online.