Preocupações com a segurança alimentar no Reino Unido persistem, apesar do novo quadro de inspeções

Especialistas em política alimentar temem que as novas medidas da Agência de Normas Alimentares não abordem adequadamente as preocupações com a segurança alimentar após o Brexit.

A Agência de Padrões Alimentares do Reino Unido está prestes a introduzir um novo quadro de gestão de riscos que, espera-se, irá dar resposta às mudanças previstas na legislação de segurança alimentar. Isso ocorre no momento em que o governo do Reino Unido dá andamento ao seu plano de saída da União Europeia, o que também levará à sua retirada da liderança da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos em apenas 20 meses.

Riscos graves de que os padrões de segurança alimentar diminuam se o Reino Unido deixar de adotar as regras de segurança da UE. – Especialistas em Política Alimentar

Muitos importantes formuladores de políticas e pesquisadores temem que o Brexit tenha consequências catastróficas para os padrões de segurança alimentar do Reino Unido, resultando em leis alimentares mais flexíveis e acordos comerciais que estabeleçam padrões mais baixos. Teme-se que isso acabe levando a uma inundação do mercado com produtos importados baratos e de baixa qualidade provenientes de países com regulamentações de qualidade mais frouxas, como a China e os EUA.

Atualmente, um terço do abastecimento alimentar do Reino Unido é importado da União Europeia, e a saída do país da UE significa que uma grande parceria comercial de alimentos foi dissolvida. De acordo com a Agência de Padrões Alimentares, novas regulamentações estão sendo elaboradas como parte de uma abordagem proativa para lidar com os riscos presentes no atual sistema regulatório antes que uma crise real ocorra.

Ela se baseará em indicadores e dados para determinar o risco apresentado pelas empresas do setor alimentício, avaliando o comportamento e a cultura das empresas em questão. Essas novas regulamentações proporcionarão uma garantia regulatória que a Agência de Padrões Alimentares espera que melhore os padrões e reduza os transtornos administrativos, ao mesmo tempo em que impõe medidas contra as empresas que não cumprirem as normas.

Como parte desse processo, as empresas em toda a cadeia alimentar serão obrigadas a participar de um sistema de registro aprimorado que exigirá informações mais detalhadas delas. Isso será usado para segmentar melhor as empresas, e o sistema favorecerá aquelas com histórico de conformidade — o que significa que elas enfrentarão inspeções menos frequentes e menos rigorosas.

Apesar dessas medidas, muitos pesquisadores renomados consideram que não está sendo feito o suficiente para abordar como o Brexit afetará a segurança alimentar no Reino Unido. Um artigo recente publicado por pesquisadores de três importantes universidades britânicas cita 16 questões principais que, em sua opinião, o governo enfrentará em março de 2018 e que têm “o potencial de ameaçar a resiliência e a segurança alimentar do Reino Unido”.

O artigo, intitulado “A Food Brexit: time to get real – A Brexit Briefing”, conta com contribuições de Tim Lang (professor de Política Alimentar no Centro de Política Alimentar da Universidade de Londres), Erik Millstone (professor de Política Científica na Unidade de Pesquisa em Política Científica da Universidade de Sussex) e Terry Marsden (professor de Política e Planejamento Ambiental e diretor do Instituto de Pesquisa em Locais Sustentáveis da Escola de Planejamento Regional e Geografia da Universidade de Cardiff).

O artigo alerta que o Reino Unido está atualmente enfrentando muitos problemas relacionados à alimentação, mão de obra, agricultura e abastecimento, os quais serão drasticamente afetados pelo “Brexit Alimentar”, e que as medidas atuais não são suficientes para lidar com o impacto que isso terá em todos os aspectos da segurança e da proteção alimentar.

Os autores afirmam ainda que há “riscos sérios de que os padrões de segurança alimentar diminuam se o Reino Unido deixar de adotar as normas de segurança da UE e, em vez disso, aceitar acordos de livre comércio com países com padrões significativamente mais fracos”.

O Reino Unido já iniciou negociações para um futuro acordo comercial com fornecedores americanos de aves, laticínios e carne, que, como muitos têm apontado, atualmente não atendem aos padrões de qualidade estabelecidos pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, pois contêm pesticidas, aromatizantes proibidos e outros ingredientes.