Você realmente é o que come, diz a ciência
Em uma escala de tempo geracional, há evidências fisiológicas de que realmente nos tornamos o que comemos.
Em 1826, Anthelme Brillat-Savarin, um advogado e político francês que, no entanto, ganhou fama como gastrônomo, escreveu em seu livro “Physiologie du Goût, ou Méditations de Gastronomie Transcendante”: “Diga-me o que você come e eu lhe direi quem você é”.
Em 1836, o filósofo e antropólogo alemão Ludwig Feuerbach escreveu a frase “O homem é o que come” em um de seus famosos ensaios.
O pioneiro americano em alimentação saudável e perda de peso, Victor Lindlahr, repetiu “Você é o que você come” em 1942, e na década de 60, o movimento hippie fez dessa mesma frase um de seus principais slogans para uma alimentação saudável.
O que foi percebido empiricamente por todas essas pessoas completamente diferentes, vivendo em épocas distintas, agora tem base científica graças a pesquisadores da Universidade de Oxford. Em uma pesquisa inovadora publicada na revista Genome Biology.
O Departamento de Ciências Vegetais da Universidade de Oxford revelou evidências genéticas de que nossas dietas podem afetar as sequências de DNA de nossos genes, e que a verdade popular de “Somos o que comemos” é respaldada por evidências fisiológicas concretas — sempre em uma escala de tempo geracional.
Como Emily Seward, doutoranda do Departamento de Ciências Vegetais de Oxford, explicou ao Olive Oil Times, para testar essa hipótese, os pesquisadores basearam seu estudo em um sistema modelo composto por grupos simples de parasitas: parasitas eucarióticos (Kinetoplastida) e parasitas bacterianos (Mollicutes). “Parasitas que compartilham um ancestral comum, mas que, por razões ainda não totalmente compreendidas, evoluíram para se alimentar de alimentos bastante diferentes e infectar hospedeiros distintos”, disse Seward.
Utilizando novos modelos matemáticos desenvolvidos pelos próprios cientistas, eles chegaram à conclusão de que diferentes níveis de nitrogênio, conforme se manifestam na dieta de um parasita, afetavam a composição do DNA. Parasitas com dietas pobres em nitrogênio e ricas em açúcar se distinguiam por sequências de DNA que utilizavam menos nitrogênio do que parasitas com dietas ricas em nitrogênio e proteína.
Os resultados destacaram a relação cientificamente emergente entre metabolismo celular e evolução. Eles também mostraram que é possível prever as dietas de organismos semelhantes analisando a sequência de DNA de seus genes.
Acima de tudo, o estudo provou que, ao adotarmos dietas diferentes, podemos de fato alterar nossa composição genética, mas (de volta à realidade) não tão facilmente quanto gostaríamos de imaginar: embora possamos nos tornar mais saudáveis ao optar por escolhas nutricionais mais saudáveis, não podemos manipular nosso DNA a ponto de que as informações anteriores sejam totalmente apagadas e substituídas por novas — pelo menos ao longo de nossa própria vida.
“Existem tantos fatores que podem influenciar a sequência de DNA de um organismo. Na pesquisa, estamos falando de pequenas mudanças alimentares que se acumulam ao longo de gerações anteriores. É uma questão geracional, no sentido de que muitas gerações dão pequenos passos para alterar seu mapa genético. Uma mudança drástica não pode ocorrer no decorrer de uma vida. Você pode se tornar mais saudável, mas não mudará drasticamente seu DNA”, disse Seward.