Na Brist, é tudo uma questão de família

No último episódio da nossa série de vídeos em quatro partes sobre os produtores da Ístria, apresentamos a Brist, uma empresa familiar onde cada membro desempenha um papel.

“É um pouco incomum encontrar um irlandês no meio de um olival. O lugar onde nasci ficava bem longe das oliveiras. Acho que provavelmente era mais perto das batatas”, diz Paul O’Grady enquanto caminha entre as oliveiras na fazenda de Brist, em Vodnjan, no lado croata da península da Ístria.

Antes de se tornar “o membro irlandês desta família de olivicultores”, O’Grady, que é arquiteto, teve muitos empregos, desde coach de negócios até professor de inglês e dança irlandesa.

“Quando me casei com alguém desta família e me mudei para esta parte do mundo, fiquei fascinado por tudo: pela fazenda, por como as coisas funcionam. E me envolvi”, diz ele.

“Tive que aprender tudo do zero e isso é uma das coisas que mais gosto de fazer.”

Silvano Puhar, pai de sua esposa, concorda. A Brist é uma empresa familiar onde cada membro tem uma função.

Silvano cuida da terra, enquanto sua filha Lena é responsável pela degustação e mistura do azeite.

“Não é de se admirar que tenham escolhido o irlandês para ser o contador de histórias da família”, brinca Paul.

O terreno nesta parte da Ístria é bem diferente do norte da península.

À medida que se segue para o sul e se entra na Croácia, as terras acidentadas da costa eslovena dão lugar, aos poucos, a uma paisagem mais suave.

Grandes carvalhos, florestas (este é um território rico em trufas) e colinas suaves encontram o mar. Aldeias pitorescas em estilo veneziano lembram que as fronteiras foram redesenhadas muitas vezes nesta região.

Vodnjan fica a cerca de seis quilômetros do litoral. Com uma população de cerca de 6.000 habitantes, esta cidade costumava ser um importante centro comercial na época da República de Veneza, que durou até o final do século XVIII. Sua localização a 135 metros acima do nível do mar — longe o suficiente da umidade da costa — a tornou um local saudável para se estabelecer.

“O cultivo de oliveiras nesta região da Ístria tem uma tradição muito longa que remonta à época romana. Seu apogeu foi durante o período da República de Veneza, quando havia o maior número de árvores, seguido por um período de declínio contínuo. Após a Segunda Guerra Mundial, houve uma queda repentina”, explica Silvano.

Nascido em Pula, a maior cidade da região, a apenas 10 quilômetros de distância, Silvano, um engenheiro elétrico agora aposentado, descreve-se como uma “criança que cresceu cercada de asfalto”.

“Meus pais e os pais da minha esposa, todos deixaram o campo e se mudaram para as cidades maiores para trabalhar nas fábricas. O cultivo de oliveiras praticamente morreu, o que significou que, para nós que temos essa tradição, houve uma interrupção de 50 anos”, diz ele em uma mistura de inglês e croata que consigo entender graças à tradução simultânea de Paul.

“Durante toda a minha vida, minha mãe, que faleceu no ano passado aos 98 anos, sempre me falou sobre a importância da terra, o que, quando eu era jovem, era um conceito bastante abstrato”, acrescenta.

Há dezoito anos, Silvano comprou um terreno de aproximadamente 10 hectares e decidiu “reconectar-se com a terra”, voltando a produzir azeite. Foi assim que a Brist — que significa literalmente “olmo” — começou, lembra ele.

Hoje, eles têm cerca de 2.000 oliveiras e também compram azeitonas de outras fazendas próximas.

A fazenda da Brist fica perto da vila de Vodnjan. Do olival, dá para ver o mar a alguns quilômetros de distância e as silhuetas escuras das Ilhas Brijuni.

Hoje um parque nacional, na época da Iugoslávia, o pequeno arquipélago costumava ser um refúgio de férias para o marechal Tito, presidente do país socialista, e seus convidados.

Árvores plantadas recentemente se misturam com outras centenárias na propriedade dos Brist. A maioria delas é da variedade Buza, uma cultivar local que pode variar ligeiramente de vila para vila na região e que é conhecida como Buga na Eslovênia.

“É evidente, com base no passado, que as variedades nativas têm uma vantagem sobre as variedades introduzidas, como as da Itália, por exemplo, pois se adaptaram a este microclima específico ao longo dos últimos dois mil anos”, diz Silvano.

“Nos mercados mundiais, que estão saturados com azeites de grandes países produtores como Espanha, Itália, Grécia e outros, Turquia, Tunísia, não podemos competir em quantidade. Podemos, no entanto, competir com a autenticidade de nossas variedades”, sugere ele.

Muros de pedra seca e alguns pequenos abrigos de pedra para pastores, conhecidos como kazuni em croata, cercam o olival e conferem à fazenda de Brist uma atmosfera quase isolada.

Essa técnica antiga de construção, que consiste em empilhar pedras umas sobre as outras, sem usar nenhum outro material, exceto, às vezes, terra seca, está espalhada por toda a região do Mediterrâneo, de Chipre à Espanha, e foi inscrita em 2018 na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco.

A Croácia tem uma produção anual de azeite de cerca de 4.000 toneladas, muito abaixo de outros países mediterrâneos, como Itália, Espanha ou Grécia, em termos de quantidade.

No entanto, a qualidade do azeite croata é cada vez mais apreciada, tendo conquistado 40 prêmios no Concurso Mundial de Azeite NYIOOC 2018, ficando atrás apenas da Itália, Espanha, Estados Unidos e Grécia. Nessa edição do concurso, Brist ganhou um Prêmio de Ouro.

“Este microclima é excepcionalmente adequado para o cultivo de azeitonas. A Ístria é uma região pequena e fica muito próxima do mar, por isso temos essas agradáveis brisas marítimas. Também temos o vento bura, que é o vento do norte e sopra em direção a nós. Esses dois ventos são muito bons”, menciona Paul como um dos fatores que tornam esta região especial para a produção de azeite.

“Produzimos uma quantidade muito limitada, mas de máxima qualidade. A razão para isso é que, durante o período do socialismo aqui, esta terra foi abandonada e agora a reativamos. Isso significa que esta terra está limpa, virgem e não foi afetada por fertilizantes minerais”, acrescenta Silvano.