Os produtores de Trás-os-Montes apostam na qualidade

Diz-se que os trasmontanos são ousados e trabalhadores. Seja esse um estereótipo preciso ou não, há algo que continua colocando essa região no centro das atenções internacionais no que diz respeito ao azeite de oliva de alta qualidade.

Num recanto da Europa Ocidental encontra-se uma região produtora de azeite premiada inúmeras vezes. Como o próprio nome sugere, Trás-os-Montes e Alto Douro situa-se para além das montanhas, num vale a montante do rio Douro, no nordeste de Portugal.

Diz-se que os trasmontanos são ousados e trabalhadores, características que supostamente são fruto de séculos de luta em meio a solos áridos e um clima adverso. Seja um estereótipo preciso ou não, algo continua impulsionando essa região para o centro das atenções internacionais no que diz respeito ao azeite de oliva premium.

A região de Trás-os-Montes e Alto Douro abrange mais de 34.000 produtores e 80 marcas, tendo fornecido 30% da produção portuguesa de azeite de 2008-09, que totalizou 50.000 toneladas. Nos últimos meses, ela ampliou seu palmarés com conquistas em três continentes.

O Flos Olei, guia italiano dos melhores azeites extravirgens, colocou este ano a produtora trasmontana Maria Andrade entre os 20 melhores do mundo. O guia atribui às explorações produtoras de azeite uma classificação de 0 a 100, e o azeite português com a pontuação mais alta também era da DOP Azeite Trás-os-Montes — o Romeu da Sociedade Clemente Menéres, com 92 pontos. Dos 17 produtores portugueses incluídos no guia de 2010, nove eram desta DOP. (DOP é equivalente à classificação da UE PDO, ou Denominação de Origem Protegida.)

Com seu azeite extravirgem João das Barbas, Maria Andrade também conquistou o segundo lugar na categoria DOP no primeiro Concurso Mundial de Azeite Extravirgem, realizado no pavilhão italiano da Expo Mundial de Xangai.

E nos EUA, o azeite Porca de Murça foi mais uma vez distinguido como um dos melhores do mundo. Este produto da DOP Trás-os-Montes conquistou a prata na categoria Média, Lote 50, no Concurso Internacional de Azeite Extra Virgem de Los Angeles de 2010. O Magna Olea, da mesma DOP, ficou com o bronze na categoria Média, Cobrançosa.

Desafios

Branco

Apesar de todo esse sucesso, António Branco, presidente da Associação de Oleicultores de Trás-os-Montes e Alto Douro (AOTAD), afirma que a região enfrenta alguns problemas graves.

Entre eles está o fato de Portugal não possuir um órgão interprofissional nacional para promover e proteger sua indústria de azeite. Segundo Branco, o governo está mais preocupado em reduzir a dependência de Portugal do azeite importado para consumo interno do que em aumentar a qualidade das exportações. Ele gostaria que Portugal fizesse mais para promover seu azeite no exterior e para acelerar a implementação de um regulamento da UE que exige que o país de origem conste nas garrafas de azeite.

Outro problema é que, em Portugal, o uso comercial do termo “azeite” se refere a uma mistura de azeite refinado e azeite extravirgem. “Isso é confuso para os consumidores portugueses, por isso a AOTAD gostaria que o termo ‘azeite’ fosse usado apenas para se referir ao azeite extravirgem e ao VOO”, disse Branco.

Alheira de Mirandela

Os transmontanos são famosos por suas mesas fartas, repletas de vinho local, azeite e enchidos, e é um conceito que Branco vê potencial para explorar. Sua visão é a de uma marca regional para promover produtos locais de qualidade, incluindo azeite, vinho, queijo, mel, pão e carnes e enchidos locais, como a tradicional Alheira de Mirandela.

A AOTAD também está trabalhando para a adoção de uma nova DOP na área, abrangendo a região do Douro, e em possíveis iniciativas conjuntas de turismo e marketing com a região vizinha de Castela e Leão, na Espanha. Além disso, está investindo 1,3 milhão de euros (US$ 1,8 milhão) em uma rede de mídia social que dá aos membros da DOP acesso a dados de produção e qualidade, informações úteis como ameaças às oliveiras e uma plataforma de comércio on-line.

Com toda essa iniciativa não é surpresa que a AOTAD tenha sido a vencedora do prêmio “Cristina Tiliacos” da Flos Olei no ano passado, que reconhece a excelência na promoção
e difusão do cultivo da oliveira.

Segmentação

A produção de azeite tem sido importante nesta região desde pelo menos o século XVI mas a DOP Azeite de Trás-os-Montes só surgiu em 1994. Atualmente, é uma das seis DOPs de Portugal e a segunda maior área de produção de azeite do país.

O guia afirma que as principais variedades de azeitona da DOP Azeite de Trás-os-Montes — Cobrançosa (30%), Verdeal Transmontana (25%), Madural (20%), Cordovil (10%) — produzem “azeites muito refinados e complexos, com aroma de especiarias, amêndoa e outros frutos secos”.

A DOP abrange 3.100 km², quase 6.000 propriedades agrícolas da DOP e 47.000 ha de olivais da DOP. A produção de azeitonas e azeite impulsiona a economia regional em mais de 30 milhões de euros (US$ 41 milhões) por ano. Mas nenhum dos produtores vive exclusivamente da olivicultura — eles também criam animais e cultivam outros produtos. Todos vendem suas azeitonas a uma das 17 cooperativas da região ou a um dos 100 lagares locais.

Em um documento de discussão de 2004, os pesquisadores da Universidade do Minho J. Cadima Ribeiro e J. Freitas Santos relataram que a denominação de origem, a marca do produtor e as características do azeite (orgânico, misturado com alho ou ervas, etc.) têm um impacto positivo nos preços do azeite português. Eles afirmaram que dar mais
visibilidade à região de origem nos rótulos e estabelecer marcas próprias eram medidas adequadas, mas deveriam ser acompanhadas por certificação de qualidade para impedir os “aproveitadores”.

A Cooperativa Agrícola dos Olivicultores de Murça (CAOM) é um exemplo da ampla segmentação que ocorreu desde então dentro da DOP Trás-os-Montes. A CAOM se reestruturou para diversificar sua linha de produtos, atualizar sua imagem e aderir a padrões de qualidade extremamente elevados. Ela espera aumentar seu volume de vendas em 20% em dois anos, com base no investimento em mercados externos de alto valor agregado.

Branco afirma que, em toda a DOP, cooperativas, moinhos e embaladoras modernizaram sua tecnologia e adotaram as melhores práticas em termos de fatores como o momento da colheita e o controle de temperatura. A formação de provadores de azeite na região foi outro pilar fundamental no foco no azeite premium.

Um novato de 81 anos

Andrade

O prêmio “Moinho de Azeite Emergente” da Flos Olei, conquistado por Maria Andrade, tem como objetivo incentivar as propriedades “jovens”. A família de Andrade cultiva azeitonas há gerações na região de Mirandela, na DOP, mas foi somente em 2008, aos 80 anos, que ela começou a produzir seu próprio azeite.

O olival de 29 hectares de Andrade é quase totalmente cultivado de forma orgânica e ela colhe cedo, “para evitar os invernos rigorosos”. Ela diz que isso lhe custa um pouco em termos de rendimento, mas compensa com uma “qualidade extraordinária”. A Flos Olei diz que seu azeite João das Barbas é “excelente”, apresentando “uma cor amarelo-dourada intensa e límpida”, aroma amplo e um sabor complexo com notas de chicória, alface, hortelã e sálvia. Uma garrafa de 250 ml é vendida em Portugal por 4 a 6 euros (US$ 5,48 a US$ 8,21).

Tendo começado com tanto sucesso, Maria Andrade diz que agora tem uma grande responsabilidade: “porque não posso deixar a qualidade cair”. A DOP só pode se manter viável “se investirmos em qualidade”.  O problema é que muitos dos olivicultores “colhem tarde porque o rendimento e o preço são melhores, mas só se obtém qualidade se a colheita for feita antes da chegada da geada; caso contrário, o azeite fica sem aroma”. Ela diz que as pessoas precisam ser educadas sobre como tirar proveito da DOP.

É um sentimento que Branco partilha e espera que o governo português também venha a adotar em breve.