Produzam azeite, não guerra

A oliveira e seu precioso azeite têm assumido um papel central em regiões de todo o mundo que continuam a sofrer conflitos entre comunidades.


Testemunhando a destruição dos olivais na Cisjordânia (Getty)

O ramo de oliveira é universalmente reconhecido como um símbolo de paz e reconciliação. Embora notoriamente associado à pomba de Noé no Antigo Testamento, suas raízes metafóricas remontam, na verdade, aos antigos romanos dos séculos II e III a.C., que plantavam vastos campos de oliveiras como oferta de paz às terras conquistadas. Nos tempos modernos, no entanto, é o azeite produzido por essa árvore sagrada que assumiu o papel central em regiões ao redor do mundo que continuam a sofrer conflitos intercomunitários.


VÍDEO

 

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Um falso documentário imaginou o sucesso dos produtores de azeite em Chipre em 2030, caso a reunificação das partes grega e turca da ilha se concretizasse.
 

A ilha mediterrânea de Chipre é um desses exemplos. Em 2011, o Interdependence Project, uma parceria entre as Câmaras de Comércio da ilha, encomendou um vídeo intitulado “Chipre: O Noticiário das Nove Horas no Ano de 2030”. O falso documentário, cujas notícias revelam uma sequência de eventos que poderiam resultar da reunificação da ilha, destaca o azeite como um exemplo de colaboração entre as duas comunidades. A joint venture conhecida como “Friendship Olive Oil” visa mostrar como o espírito empreendedor pode superar a divisão entre as comunidades da ilha, após a invasão turca de 1974 e um impasse político que persiste há mais de 38 anos.

Na Palestina, onde o azeite tem sido central nas disputas nos territórios ocupados por Israel, suas conotações idílicas são menos claras. Além de seu significado cultural, a indústria do azeite é de suma importância para a economia palestina. Ela constitui 14% da renda agrícola e sustenta o sustento de aproximadamente 80.000 famílias. Apesar disso, uma série de obstáculos se coloca diante dos produtores de azeite no que a imprensa liberal israelense chamou de “Guerras da Azeitona”. Entre eles estão o controle dos recursos hídricos, a construção de uma barreira de segurança que isola os agricultores de seus olivais e um rigoroso sistema de autorizações que impede milhares de pessoas de acessar suas terras durante a maior parte da época da colheita. Em defesa dessas restrições e dos prazos impostos à colheita deste ano, as autoridades israelenses argumentam que estão tentando proteger os agricultores da crescente violência e vandalismo por parte dos colonos. No entanto, para as famílias cujo sustento depende da colheita, colher as azeitonas antes que estejam maduras pode reduzir seriamente a qualidade do azeite e, consequentemente, o preço que os produtores podem obter por ele.

Outro debate em torno do status sagrado do azeite na Palestina diz respeito ao “Peace Oil”, uma iniciativa da instituição de caridade britânica registrada Charities Advisory Trust. O site do Peace Oil declara que o azeite é produzido em Israel por judeus e árabes trabalhando juntos e, ao ajudar a comercializar seus produtos, espera levar assistência financeira a essas empresas, incentivando assim outras. Apesar de suas intenções louváveis, o Peace Oil tem sido alvo de críticas por parte daqueles que alegam que ele está prejudicando o azeite de comércio justo produzido na Cisjordânia ocupada, onde a assistência econômica é mais necessária. A Zaytoun, uma cooperativa fundada em 2004 para facilitar o acesso dos agricultores palestinos aos mercados ocidentais, acusou o Peace Oil de se aproveitar da boa vontade do público e da noção de paz entre as duas comunidades. Várias ONGs internacionais e organizações religiosas escreveram a igrejas e grupos de caridade instando-os a promover o azeite palestino em vez do Peace Oil.


Foto: Gary Fields

Enraizadas na causa palestina estão mudas de esperança propagadas por um movimento crescente de ativistas com “mão verde”, conhecidos como os jardineiros guerrilheiros. Eles chegam de todas as partes do mundo e de todas as esferas da vida para apoiar os agricultores na conquista de seus direitos de colheita e para protegê-los da ocupação. Uma iniciativa que teve início em 2001, a Olive Tree Campaign (OTC) busca plantar e replantar oliveiras patrocinadas em áreas que foram arrancadas e destruídas pelos israelenses na Cisjordânia ocupada e na Faixa de Gaza. Este ano, a OTC plantou 8.800 oliveiras para mais de 131 famílias palestinas, elevando o total desde o início do programa para 78.164. Ao reunir patrocinadores e indivíduos de todo o mundo, a campanha aspira a capacitar os agricultores palestinos para lidar com a destruição sistemática das oliveiras de forma criativa e persistente, e a garantir que este líquido sagrado preserve seu simbolismo nesta região do mundo sedenta de paz.