A pandemia atrasa as exportações da Argentina
A queda na demanda por azeitonas de mesa e azeite de oliva no Brasil, aliada aos baixos preços desses produtos, faz com que muitos produtores estejam enfrentando dificuldades para se manterem solventes. Alguns estão obtendo empréstimos de emergência, enquanto outros cortam custos.
A pandemia da Covid-19 prejudicou as perspectivas econômicas dos produtores de azeitonas de mesa e azeite de oliva no noroeste da Argentina, à medida que as exportações para o lucrativo mercado brasileiro estão praticamente paralisadas.
A desaceleração da demanda no Brasil, combinada com os baixos preços do azeite, deixou muitos produtores mal conseguindo pagar os salários de seus colhedores. Alguns estão até mesmo considerando a possibilidade de abandonar seus olivais.
As empresas que pretendem continuar suas atividades terão que rever suas despesas e planilhas de custos. Elas terão que fazer ajustes, e assim estarão a um passo de abandonar suas fazendas e reduzir a produção.
“A questão do coronavírus desacelerou as vendas”, disse Julián Clusellas, presidente da empresa de azeite Valle de La Puerta e membro do conselho da Federação Argentina de Azeite, ao Olive Oil Times. “O transporte está mais lento e os custos estão um pouco mais caros. Mas o principal problema é que o consumo vai desacelerar.”
O Brasil é, de longe, o maior mercado para as azeitonas de mesa argentinas e também um mercado significativo para o azeite do país.
Veja também: Atualizações sobre a Covid-19Entre 65% e 70% da safra de azeitonas de mesa da Argentina é exportada para o Brasil, disse Clusellas. Por outro lado, cerca de 17% das exportações de azeite de oliva da Argentina em 2017 – o último ano para o qual há dados disponíveis – tiveram como destino o Brasil, de acordo com o Centro de Comércio Internacional.
“Sabemos que há vários produtores de azeite que estão tendo dificuldade para exportar por falta de demanda firme e correm alto risco devido à situação que vemos hoje no mercado brasileiro”, disse Clusellas.
A pandemia do coronavírus atingiu o Brasil de forma particularmente severa. Até o momento, o país tem mais de 101 mil casos registrados e um número oficial de mortes superior a 7 mil. No entanto, os testes têm sido limitados e muitos especialistas acreditam que ambos os números sejam muito maiores.
Embora grande parte do Brasil não tenha fechado devido à pandemia, a economia do país sofreu uma contração significativa. O real, moeda do Brasil, desvalorizou-se em 45%, tornando muito mais caro para os importadores comprar produtos argentinos.
“O Brasil não é um país que tem uma taxa de câmbio flexível, então, quando a moeda se desvaloriza, os comerciantes não atualizam os preços e as importações caem”, disse Clusellas.
É menos provável que os varejistas do país reabasteçam suas prateleiras quando o real se desvaloriza, pois suas margens de lucro com azeitonas de mesa e azeite importados caem significativamente.
De acordo com projeções da Fundação Getúlio Vargas, um think tank brasileiro focado na economia, as importações da Argentina em 2020 devem diminuir 11,7% em comparação com o ano passado. Em termos práticos, isso representa uma perda de receita de US$ 9,32 bilhões para os produtores argentinos em diversos setores.
No entanto, Clusellas acrescentou que os produtores de azeite que exportam para a Europa e os Estados Unidos tiveram apenas pequenos transtornos causados pela pandemia. De acordo com o Centro de Comércio Internacional, a Europa e os EUA foram o destino de 57% das exportações de azeite do país em 2019.
Além da desaceleração da demanda no Brasil, os preços tanto das azeitonas de mesa quanto do azeite de oliva permanecem persistentemente baixos há mais de um ano.
Clusellas disse que muitos produtores na Argentina estão vendendo por menos da metade do valor que praticavam na safra de 2017/18, com muitos deles incapazes de cobrir seus custos de produção. Para se manterem solventes, alguns tiveram que recorrer ao banco nacional do país para receber empréstimos de emergência.
Clusellas alertou que isso pode ser o início de um ciclo vicioso, no qual os produtores precisam cortar custos para se manterem no mercado. Isso, por sua vez, afetará sua capacidade de retornar aos níveis de produção pré-pandêmicos e aumentar as exportações após o fim da crise do coronavírus.
“As empresas que desejam continuar suas atividades terão que revisar suas despesas e estruturas de custos”, disse Clusellas. “Elas farão ajustes ou estarão a um passo de abandonar suas fazendas e reduzir a produção. Talvez algumas até se dediquem à pecuária.”