UE adia acordo comercial com o Mercosul após Itália e França retirarem seu apoio
A União Europeia adiou a assinatura do acordo de livre comércio com o Mercosul depois que a Itália e a França se recusaram a apoiar o acordo, alegando preocupações dos agricultores nacionais.
A União Europeia não assinará seu acordo de livre comércio com os quatro países sul-americanos que compõem o Mercosul até janeiro, depois que a Itália e a França se recusaram a apoiar o acordo.
Autoridades de ambos os países afirmaram que precisam de mais tempo para convencer os agricultores a aceitar o acordo, com o primeiro-ministro francês descrevendo o acordo, já aprovado pelos países do Mercosul, como “incompleto”.
“Entramos em contato com nossos parceiros do Mercosul e concordamos em adiar um pouco”, escreveu a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, nas redes sociais.
O Financial Times informou que os países do Mercosul aceitaram o adiamento depois que a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, “solicitou mais tempo” durante uma ligação telefônica com o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva.
“Meloni explicou que não é contra o acordo; ela está simplesmente passando por algum constrangimento político por causa dos agricultores italianos, mas está confiante de que pode convencê-los a aceitá-lo”, disse da Silva após a ligação.
Em vez de votar a ratificação do acordo conforme previsto, o Parlamento Europeu e o Conselho Europeu — composto por todos os 27 ministros do Comércio da UE — chegaram a um acordo na semana passada sobre salvaguardas vinculativas para os agricultores. Isso inclui a possível reimposição de tarifas caso haja um aumento repentino nas importações ou se os preços caírem mais de 8% em um único país.
A Comissão Europeia também procurou acalmar as preocupações dos agricultores ao propor um fundo de apoio de vários bilhões de euros.
Após sua conversa com o presidente brasileiro, o gabinete de Meloni informou que a Itália estaria pronta para assinar o acordo assim que recebesse o feedback dos agricultores sobre as salvaguardas propostas e o apoio financeiro.
Para ser ratificado, o acordo deve obter o apoio de pelo menos 15 Estados-membros, representando 65% da população da UE no Conselho Europeu, além de uma maioria simples no Parlamento Europeu.
Áustria, França, Hungria, Itália, Irlanda, Países Baixos e Polônia — que, juntos, representam cerca de 45% da população da UE — questionaram publicamente o acordo ou afirmaram que se oporiam a ele.
Devido ao seu tamanho, o apoio da Itália ou da França seria suficiente para fazer com que o acordo ultrapassasse o limite de ratificação.
Negociado ao longo de 25 anos, o Acordo de Parceria UE-Mercosul criaria a maior zona de livre comércio do mundo, removendo a maioria das barreiras comerciais entre 720 milhões de pessoas na Argentina, no Brasil, no Paraguai, no Uruguai e na União Europeia.
Os agricultores europeus e seus defensores em Bruxelas, onde fica a sede da Comissão Europeia, há muito se opõem ao acordo, argumentando que não conseguem competir com as importações isentas de tarifas de carne bovina, frango, laticínios e grãos da Argentina e do Brasil.
No entanto, os produtores europeus e alguns produtores argentinos de azeite apoiam fortemente o acordo. A remoção das tarifas sobre o azeite comercializado entre os dois lados do Atlântico permitiria que produtores e exportadores competissem de forma mais agressiva em termos de preço ou obtivessem margens maiores.
Embora se espere que o acordo tenha um efeito limitado no mercado europeu de azeite, a remoção da tarifa de 31,5% da Argentina e dos impostos de 9% cobrados pelo Paraguai e pelo Uruguai sobre as importações de azeite extravirgem poderia reduzir os custos para os consumidores ao aumentar a concorrência.
Os efeitos sobre consumidores e produtores da remoção das tarifas do Brasil sobre o azeite extravirgem no início de 2025 ainda não estão claros. Ainda assim, eles podem oferecer uma visão inicial de como o acordo mais amplo poderia remodelar os mercados de azeite na Argentina e no Uruguai.