Uma campanha difamatória contra o azeite tunisiano

Representantes tunisianos e outras pessoas estão se manifestando contra uma campanha destinada a manchar a reputação do azeite de oliva do país, depois que a Europa aumentou os limites de importação para ajudar na sua recuperação econômica.

O azeite tunisiano é alvo de algumas campanhas midiáticas agressivas e enganosas na Europa.

O clímax foi atingido em 15 de março, durante um programa de televisão italiano chamado “Ballarò”, no canal público RAI3, que é assistido principalmente por idosos.

Azeite extravirgem de boa qualidade pode ser produzido na Itália, mas também na Tunísia. — Zefferino Monini, Monini Spa

Um jornalista fez uma reportagem em um pequeno lagar tunisiano localizado em Zaghouan, para mostrar aos seus concidadãos o que foi caracterizado como medidas precárias de saneamento e higiene em um lagar tunisiano. No estúdio do programa também estavam presentes Matteo Salvini, presidente do partido populista de extrema direita italiano Lega Nord, e Zefferino Monini, CEO da Monini Spa, uma grande empresa do setor de azeite de oliva.

Por sua vez, Monini expressou sua desaprovação em relação ao trabalho do jornalista, chamando-o de “superficial e parcial”. Monini continuou dizendo: “A generalização nunca é boa para a verdade e a informação verdadeira. Azeite de oliva extravirgem de boa qualidade pode ser produzido na Itália, mas também na Tunísia, e o mesmo se aplica ao azeite de baixa qualidade.”

Em 17 de setembro, a Comissão Europeia aprovou uma proposta legislativa que autorizou o acesso temporário adicional do azeite da Tunísia ao mercado europeu para apoiar a recuperação econômica do país. Até 2017, a Tunísia está autorizada a exportar para a UE uma cota de 35.000 toneladas de azeite por ano sem direitos aduaneiros, além das 56.700 toneladas já permitidas, totalizando 91.700 toneladas anualmente.

“Circunstâncias excepcionais exigem medidas excepcionais. A resposta de hoje é um forte sinal da solidariedade da UE com a Tunísia, que conta com o nosso apoio”, afirmou Federica Mogherini, Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança.

As relações comerciais entre a UE e a Tunísia são regidas pelo Acordo de Associação Euro-Mediterrânico, assinado em 1995, que permite a exportação anual de 56.700 toneladas de azeite da Tunísia para a Europa sem sobretaxas alfandegárias. Esse acordo lançou as bases para uma zona de livre comércio.

Zefferino Monini

Zefferino Monini

É claro que alguns produtores europeus de azeite têm uma percepção diferente da cota de emergência tunisiana. Na Itália, a reação da comunidade agrícola foi a mais forte. Já enfraquecida pela devastadora infecção bacteriana causada pela Xylella fastidiosa, essa comunidade viu então o azeite de fora da UE inundar seu mercado.

Uma campanha de mobilização foi lançada pela organização de agricultores Coldiretti, reforçada por várias personalidades, partidos políticos e meios de comunicação que uniram suas vozes de descontentamento.

De acordo com a agência de notícias italiana ANSA, a UE consome anualmente 1.165.500 toneladas de azeite, das quais 1.032.600 toneladas são produzidas por produtores europeus, liderados por Espanha, Itália e Grécia. O restante, cerca de 132.800 toneladas, provém de países não pertencentes à UE, ou seja, cerca de 7,8% do total.

As reações tunisianas vieram por meio do presidente da associação Forza Tounes, Bayoudh Suhail, que criticou fortemente a atitude inadequada das autoridades tunisianas ao lidar com o caso. Ele sugeriu o lançamento de uma campanha chamada “o azeite, assim como o peixe, não tem nacionalidade” para se opor ao que considerou uma campanha difamatória imoral.

Fradi Mourad, presidente da Câmara de Comércio Tunisino-Italiana, também se pronunciou em várias estações de rádio e instou o Ministro da Agricultura a criar uma força-tarefa para divulgar a excelente qualidade do azeite na Tunísia e sua reputação internacional.

Ele também destacou que a mídia italiana muitas vezes não consegue descrever a realidade tunisiana. De fato, de acordo com esse mesmo programa “Ballaro”, parecia perfeitamente seguro consumir azeite de oliva da Tunísia. A marca de azeite de oliva extravirgem apresentada no programa havia ganhado medalhas em competições internacionais.

Em 2015, a Tunísia tornou-se o maior exportador mundial de azeite. Após uma temporada excepcional em 2014/2015, a Tunísia sofreu uma queda acentuada de 60% na produção na safra de 2015/2016.