A recuperação do comércio coloca à prova os produtores de azeite da Europa em meio à queda dos preços

Prevê-se que as exportações europeias de azeite aumentem 6% na safra de 2025/26, à medida que os preços mais baixos reanimam a demanda, mas os produtores alertam que os custos continuam altos.

Prevê-se que as exportações europeias de azeite aumentem 6% na safra de 2025/26, atingindo 794.000 toneladas, já que os preços mais baixos ajudam a reanimar a demanda nos mercados globais após dois anos de oferta restrita e preços recordes.

De acordo com as últimas Perspectivas de Curto Prazo da Comissão Europeia, a queda nos preços já está remodelando os fluxos comerciais. As remessas da UE para a China dobraram até março em comparação com o mesmo período de 2024/25, enquanto as exportações para o Brasil, o Reino Unido e o Japão também aumentaram.

As exportações para os Estados Unidos diminuíram desde o início da safra, apesar de o país continuar sendo o maior importador mundial de azeite de oliva. Essa contração reflete, em parte, a dinâmica da campanha anterior, quando uma queda acentuada na colheita na Itália restringiu os fluxos tradicionais para o mercado americano e levou os compradores norte-americanos a diversificar suas aquisições em direção a fornecedores não pertencentes à UE mais competitivos, incluindo a Tunísia.

A recuperação do comércio está ocorrendo mesmo com o consumo global permanecendo em um nível historicamente alto. De acordo com dados do Conselho Oleícola Internacional apresentados no Congresso Mundial do Azeite, o consumo global de azeite atingiu 3,2 milhões de toneladas em 2024/25, ligeiramente acima da média dos últimos cinco anos, de 3,07 milhões de toneladas. Em comparação com os níveis médios de consumo registrados na década de 1990, a demanda global quase dobrou.

Em conjunto, os números apontam para um mercado em transformação. Os preços mais baixos estão ajudando os exportadores da UE a alcançar mercados dependentes de importações, onde a demanda continua a crescer. No entanto, esses mesmos preços estão aumentando a pressão sobre os produtores e moinhos nas regiões tradicionais de cultivo de azeitona, onde os custos não caíram na mesma proporção.

De acordo com a Comissão, os preços do azeite extravirgem na Espanha atingiram 427 euros por 100 quilogramas em outubro de 2025, chegaram a um pico de 457 euros em dezembro e caíram para 397 euros no início de junho de 2026. A Comissão afirmou que as expectativas de uma colheita melhor na safra 2026/27 nos principais países produtores também podem estar contribuindo para essa queda.

Para os exportadores, a combinação de preços mais baixos e maior demanda global pode marcar o início de uma recuperação do comércio. Em muitos mercados dependentes de importações, o azeite de oliva compete como um produto alimentício premium, mas o preço ainda é importante. Após os aumentos acentuados dos últimos anos, preços europeus mais competitivos podem ajudar a reconstruir a demanda em mercados onde os consumidores optaram por produtos mais baratos ou reduziram suas compras.

Para muitos produtores, no entanto, a mesma tendência tem um significado mais difícil. Os preços estão caindo, enquanto os custos com mão de obra, energia, fertilizantes, financiamento, logística e conformidade permanecem elevados. A pressão é especialmente aguda para os agricultores que trabalham com olivais tradicionais, moinhos menores e sistemas de produção menos mecanizados.

No coração da produção espanhola de azeite, a associação de agricultores ASAJA Jaén alertou que, nos níveis atuais de preços, “os olivais antigos não terão viabilidade alguma” na província. Olivais tradicionais, de menor rendimento e muitas vezes de sequeiro coexistem em um mercado cada vez mais dominado por sistemas intensivos e de altíssima densidade, capazes de reduzir drasticamente os custos de colheita.

O alerta reflete preocupações mais amplas levantadas no Congresso Mundial do Azeite pelo consultor Juan Vilar, que apresentou uma pesquisa sugerindo que mais de 22% dos lagares de azeite na Espanha e em Portugal poderiam desaparecer na próxima década. De acordo com o estudo, a Península Ibérica conta atualmente com 2.219 moinhos de azeite, mas apenas 60 deles já processam um terço de toda a produção de azeite.

A pesquisa projetou que a região poderia perder 200 moinhos em cinco anos e 500 em uma década. Se as tendências atuais continuarem, o mapa dos moinhos da Península Ibérica poderia, eventualmente, ser reduzido a 85 instalações, concentrando 40% da produção.

Na Itália, a mesma pressão gerou um apelo mais amplo por reformas. Um comitê nacional de produtores, moinhos e organizações de produtores se reuniu em Bari para exigir controles mais rigorosos, apoio à logística e à qualidade, além de relatórios de preços vinculados aos custos reais de produção.

Participantes de várias regiões se reuniram para clamar por mudanças. O comitê organizador alertou que o patrimônio do azeite de oliva da Itália corre o risco de ser enfraquecido pela concorrência desleal, pelas importações produzidas sob padrões mais baixos, pelo poder de mercado de grandes varejistas e grupos multinacionais e pelos custos crescentes de produção do azeite extravirgem de alta qualidade.

As propostas da comissão incluem um documento eletrônico para movimentações de azeite a granel acima de 100 quilogramas, fiscalizações extraordinárias em operadores que apresentem crescimento anômalo no faturamento, garantias públicas para exposições bancárias vinculadas a adiantamentos aos produtores e compras de azeite italiano reconhecido, apoio temporário para custos de armazenamento de azeites italianos rastreáveis, apoio logístico aos moinhos e um sistema específico de armazenamento aduaneiro para o azeite importado, a fim de facilitar os controles.

O panorama comercial é ainda mais complicado pelas importações. A Comissão prevê que as importações de azeite da UE aumentem 24% em relação ao ano anterior, chegando a 223.000 toneladas, citando a disponibilidade de azeite tunisiano a preços mais baixos. A Tunísia, principal fornecedora de azeite da UE, deverá ajudar a cobrir o déficit deixado pela menor produção espanhola.

A dinâmica comercial está se desenrolando paralelamente às mudanças nas tendências globais de consumo. Embora a Europa ainda seja responsável por cerca de 60% do consumo global de azeite, sua participação está diminuindo gradualmente. Os Estados Unidos importam entre 380.000 e 400.000 toneladas anualmente, cerca de 35% das importações globais. O Brasil ocupa o segundo lugar, com cerca de 80.000 toneladas por ano e 8% das importações globais, embora dependa do abastecimento estrangeiro para quase todo o seu consumo.

A Ásia-Pacífico é outra importante área de crescimento. China, Japão, Coreia do Sul e Índia, juntos, representaram 22% do crescimento da demanda global nas últimas duas décadas. Com baixo consumo per capita, grandes populações e classes médias em expansão, a região é amplamente vista como uma das maiores oportunidades de longo prazo do setor.

O COI espera que o consumo global de azeite cresça cerca de 0,6% ao ano em volume, enquanto o valor de mercado deve aumentar mais rapidamente, à medida que a tendência de premiumização cria oportunidades para os produtores de azeite de alta qualidade.

A produção da União Europeia está prevista em pouco menos de 2,1 milhões de toneladas em 2025/26, uma queda de 5% em relação à safra anterior, mas ainda 9% acima da média de cinco anos. A safra da Espanha foi revisada para baixo, para cerca de 1,3 milhão de toneladas, depois que chuvas excessivas prejudicaram as condições de colheita no sul, enquanto a Grécia deve registrar uma queda de 18%. Portugal poderá aumentar a produção em 1%, e estima-se que a Itália cresça 31% devido ao ciclo de alternância de produção das oliveiras.

De modo geral, o relatório apresenta uma visão cautelosamente otimista para a próxima safra. Espera-se que o consumo de azeite de oliva na UE retorne à sua média de cinco anos, de cerca de 1,4 milhão de toneladas, enquanto os estoques finais estão previstos em 394.000 toneladas.

Olhando para o futuro, as condições climáticas favoráveis e a disponibilidade de água durante a floração nos principais países produtores da UE apontam para melhores perspectivas de colheita em 2026/27, desde que nenhum evento climático adverso afete a safra.

“O azeite de oliva não é mais apenas um produto mediterrâneo. Hoje, ele é consumido em todo o mundo, e os principais impulsionadores do crescimento da demanda estão em mercados cada vez mais diversificados”, afirmou Jaime Lillo, diretor executivo do COI, durante a última sessão do COI em Portugal. “Essa internacionalização exige maior cooperação, mais compartilhamento de conhecimento e padrões de qualidade robustos”, acrescentou.