Produtores de alimentos italianos discordam sobre o plano “Made in Italy”

A iniciativa, que tinha como objetivo distinguir produtos italianos genuínos de falsificações e recuperar bilhões de euros em vendas perdidas devido a produtos que se faziam passar por italianos, causou uma divisão acirrada entre os produtores de alimentos.

A campanha “Made in Italy” do governo italiano corre o risco de ser cancelada. Longe de ser uma receita para o sucesso, a iniciativa — que tinha como objetivo distinguir produtos italianos genuínos de falsificações e recuperar bilhões de euros em vendas perdidas devido a produtos que se faziam passar por italianos — causou uma divisão acirrada entre os produtores de alimentos.

Se abrirmos as portas para produtos com ingredientes estrangeiros, não estamos falando do verdadeiro Made in Italy. Esse não é o tipo de ajuda que estamos buscando. — Riccardo Deserti, Queijos Parmigiano Reggiano

Surgiu um debate acalorado sobre o que “Made in Italy” realmente significava. Os defensores da linha dura insistiram que nenhum ingrediente estrangeiro deveria ser permitido, enquanto outros produtores argumentaram que isso era muito rigoroso. A falta de acordo sobre os critérios colocou a iniciativa em risco, de acordo com fontes anônimas do Ministério da Indústria.

Uma dessas fontes disse à Reuters: “Por enquanto, não há decisão final sobre se vamos seguir em frente com o selo ‘Made in Italy’ — estamos estudando a questão, realizando verificações técnicas.” A fonte anônima acrescentou: “Só o lançaremos se ele atender plenamente às solicitações dos produtores.”

A campanha “Made in Italy” foi lançada em 2016 para certificar produtos alimentícios italianos genuínos. Um logotipo em forma de estrela emoldurado por ramos de oliveira e carvalho seria exibido nos produtos qualificados, facilitando aos consumidores a identificação de produtos italianos autênticos em meio a produtos de aparência italiana.

A iniciativa visava recuperar cerca de US$ 65 bilhões por ano em vendas perdidas para produtos falsificados e ajudar as pequenas empresas italianas. Isso teria acrescentado até 5% ao valor empresarial de pequenas e médias empresas do setor alimentício, de acordo com a empresa de marketing internacional Brand Finance.

Massimo Pizzo, diretor-gerente da Brand Finance na Itália, disse à Reuters: “As empresas nacionais certamente se beneficiariam com tal logotipo, já que a Itália tem uma reputação elevada no setor alimentício e muitas delas não são bem conhecidas fora do país.”

Um consórcio de produtores do queijo italiano Parmigiano Reggiano estava entre os defensores de uma linha dura, insistindo em regras rígidas. Riccardo Deserti, presidente do consórcio, disse à Reuters: “Se abrirmos as portas para produtos com ingredientes estrangeiros, não estaremos falando do verdadeiro ‘Made in Italy’. Esse não é o tipo de ajuda que estamos buscando.”

O consórcio de produtores de vinho Prosecco adotou uma postura semelhante, rejeitando a ideia de que produtos feitos com matérias-primas estrangeiras fossem rotulados como italianos.

Outras empresas, incluindo a fabricante de massas Barilla, consideraram que a produção tradicional italiana deveria qualificar os produtores para o direito de usar o logotipo. 16 das 30 unidades de produção da Barilla estão no exterior; a empresa possui fábricas nos EUA e na Rússia.

Paolo Barilla, vice-presidente da Barilla, disse em uma conferência sobre alimentos em março: “Somos italianos, pagamos impostos na Itália e administramos nossas fábricas no exterior seguindo as regras da qualidade italiana.”

Oscar Farinetti, fundador da rede italiana de alimentos de luxo Eataly, disse à Reuters: “Concordo totalmente com a ideia de um selo ‘Made in Italy’”. Farinetti não quis se posicionar, mas na loja da Eataly recém-inaugurada em Moscou, alguns de seus queijos, incluindo mozzarella e burrata, tiveram que ser produzidos com ingredientes locais devido ao embargo sobre algumas importações de alimentos europeus.

Vários consórcios na Itália já possuem regulamentos de comercialização rigorosos para seus produtos. O vinho Prosecco deve provir de regiões específicas do norte da Itália e ser produzido exclusivamente com uvas glera. O Parmigiano Reggiano (queijo parmesão) só pode ser produzido a partir de uma receita precisa e fabricado dentro de uma área definida ao redor da cidade de Parma.

Existem empresas localizadas em outros países, mas com raízes italianas, que se sentem no direito de promover seus produtos como italianos. Uma dessas empresas é a Fonterra, uma empresa de laticínios da Nova Zelândia cuja linha Perfect Italiano inclui queijos parmesão e mozzarella. A empresa usa nomes italianos e exibe a bandeira italiana porque foi fundada por Natale Italiano, um italiano que emigrou para a Austrália na década de 1920.

Um porta-voz da Fonterra disse à Reuters: “Embora a marca tenha orgulho de sua herança, sua embalagem está deixando de exibir a bandeira italiana”.

Outro obstáculo foram as normas da UE relativas à rotulagem do país de origem. Por exemplo, de acordo com as regras da UE, salsichas produzidas na Itália a partir de carne importada se qualificariam para o rótulo, enquanto o presunto fabricado em uma fábrica estrangeira de um produtor italiano não se qualificaria.