Descobrindo azeites premiados nas terras altas do sul do Brasil

Os produtores da Olivas do Gramado destacam o oleoturismo como uma forma de valorizar a qualidade e promover a sustentabilidade.

Situado no coração do Rio Grande do Sul, o estado mais ao sul do Brasil, um vasto parque dedicado à natureza e às oliveiras tornou-se a fonte de um azeite extravirgem premiado.

Com dezenas de hectares, o parque abriga uma grande variedade de plantas e animais, além de milhares de oliveiras. Todos os anos, centenas de milhares de visitantes se maravilham com seu esplendor natural.

O Parque Olivas do Gramado fica nas colinas verdejantes da região do rio Caí, a cerca de duas horas ao norte de Porto Alegre. Inaugurado oficialmente para visitantes há seis anos, o parque das oliveiras tem suas raízes em uma rica tradição familiar.

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O parque comemorou seu sexto aniversário em dezembro”, disse André Bertolucci, coproprietário do Olivas do Gramado. No entanto, as bases, incluindo infraestrutura turística, vias de acesso, olivais, maquinário e equipamentos, foram estabelecidas em meados da década de 2010, quando os primeiros investimentos foram feitos em nossa propriedade familiar para realizar um grande sonho.”

Desde 2023, a Olivas do Gramado conquistou dois prêmios de prata em edições consecutivas do Concurso Mundial de Azeite NYIOOC por seu delicado blend de azeitonas das variedades Arbequina, Picual, Frantoio, Koroneiki, Ascolana e Manzanilla.

A família contou com a experiência do patriarca Pedro Bertolucci, que vinha promovendo o turismo no Brasil desde a década de 1980.

Junto com meus irmãos Paula e Daniel, e nossa falecida mãe Susana Bertolucci, visitamos olivais em países como Portugal, Espanha e Itália, e observamos que o cultivo de azeitonas no Brasil ainda estava em seus estágios iniciais”, disse Bertolucci.

Foi então que o oleoturismo se tornou a força motriz por trás de um novo projeto.

Entre as atrações turísticas da Olivas do Gramado está a oportunidade de os visitantes criarem suas próprias misturas de azeite. (Foto: Olivas do Gramado)

Entre as atrações turísticas da Olivas do Gramado está a oportunidade de os visitantes criarem suas próprias misturas de azeite. (Foto: Olivas do Gramado)

Vimos uma oportunidade única de compartilhar com os brasileiros o fascinante processo de produção de azeite extravirgem de alta qualidade, enriquecido por uma variedade de experiências gastronômicas, de aventura, contemplativas e divertidas que agora constituem o cerne das atividades da Olivas do Gramado”, disse Bertolucci.

No parque, os visitantes podem participar da degustação sensorial harmonizada, provando até sete azeites diferentes e infusões aromáticas, cada um combinado com alimentos específicos”, acrescentou. Durante as apresentações diárias realizadas em cinco sessões em nosso auditório com 40 lugares, nossos sommeliers conduzem miniaulas sobre azeite de oliva, abordando temas como colheita, extração, atributos sensoriais, fraude, análise química e uma introdução à avaliação sensorial.”

A família Bertolucci também investiu em um trem turístico, o Olivas Express, que percorre o olival enquanto um guia turístico descreve o plantio, o manejo do olival e a colheita.

Em fevereiro e março, realizamos um evento chamado Nostra Oliva, onde os visitantes participam da colheita da azeitona e da extração do azeite, chegando até a engarrafar seu próprio ouro líquido”, disse Bertolucci. 

O dia termina com uma vista do pôr do sol sobre os cânions, com DJs convidados, uma generosa variedade de antepastos e, é claro, nosso olio nuovo recém-produzido e não filtrado”, acrescentou.

Segundo Bertolucci, o Olivas do Gramado atrai 250 mil visitantes por ano, beneficiando-se de sua localização em um popular destino turístico local.

Seu proprietário estima que 250 mil pessoas visitam o Olivas do Gramado anualmente para aprender sobre o azeite e apreciar a paisagem pitoresca. (Foto: Olivas do Gramado)

Seu proprietário estima que 250 mil pessoas visitam o Olivas do Gramado anualmente para aprender sobre o azeite e apreciar a paisagem pitoresca. (Foto: Olivas do Gramado)

Situado na Mata Atlântica e oferecendo vistas de tirar o fôlego dos cânions de Pedras Brancas na zona rural de Gramado, uma área moldada pela colonização ítalo-alemã na região de Hortênsias, no Rio Grande do Sul, esse sonho se tornou realidade”, disse Bertolucci.

A Olivas do Gramado cultiva 29 hectares de olivais com aproximadamente 12.600 oliveiras, incluindo as variedades Arbequina, Koroneiki, Ascolana e Manzanilla. Outras variedades espanholas, gregas e italianas também são cultivadas na propriedade.

A maioria das oliveiras tem cerca de 10 anos, algumas são mais jovens. À medida que essas árvores amadurecem, a empresa prevê um aumento substancial na produção de azeitonas.

A seleção das cultivares adequadas tem sido essencial para o sucesso do projeto.

Aprendemos muito com o Uruguai, especialmente com a Associação Uruguaia de Oliva (Asolur) e o corpo docente de química da Universidade da República do Uruguai”, disse Bertolucci.

“O Uruguai tem uma longa história de cultivo de azeitona na América do Sul e serve como uma excelente referência para a olivicultura brasileira devido às semelhanças nos terroirs”, acrescentou. “Isso nos ajudou muito a selecionar as variedades mais adequadas ao nosso solo na Serra Gaúcha.” 

Segundo Bertolucci, a preservação ambiental é um dos princípios fundamentais do cultivo de oliveiras no Brasil.

Na Olivas do Gramado, todas as matas ribeirinhas são totalmente preservadas, oferecendo proteção ao olival contra fungos, pulgões, cochonilhas e outras doenças que poderiam afetar as oliveiras”, disse ele.

“Grande parte da infraestrutura turística é alimentada por uma usina fotovoltaica, que utiliza painéis solares para gerar energia verde para o lagar, o laboratório, a loja e o restaurante”, acrescentou Bertolucci.

Além disso, a empresa obtém sua água de nascentes e poços artesianos. A Olivas do Gramado também dá grande importância ao tratamento de resíduos.

As chuvas intensas durante a primavera anterior resultaram em uma safra reduzida e na menor produção de azeite de oliva já registrada no Rio Grande do Sul. (Foto: Olivas do Gramado)

As chuvas intensas durante a primavera anterior resultaram em uma safra reduzida e na menor produção de azeite de oliva já registrada no Rio Grande do Sul. (Foto: Olivas do Gramado)

Todos os resíduos orgânicos dos restaurantes são compostados e posteriormente usados como fertilizante para os olivais e hortas orgânicas”, disse Bertolucci. “Os resíduos não orgânicos, como papelão, alumínio e plástico, são coletados, separados e armazenados em contêineres antes de serem enviados para reciclagem.”

A receita da venda desses materiais é reinvestida na manutenção de lixeiras e contêineres, sinalização turística e educação ambiental para nossa equipe”, acrescentou ele.

A empresa também opera uma estação de tratamento de efluentes, descrita por Bertolucci como de última geração”. A estação converte águas residuais em água cinza, utilizada para limpeza externa.

Além disso, mais de 49 hectares de áreas de preservação permanente garantem a preservação total da flora e da fauna da região”, disse ele.

Segundo Bertolucci, os olivicultores da região da Serra Gaúcha enfrentam dois grandes desafios, incluindo o solo basáltico ácido, que possui alto teor de alumínio e requer calagem regular.

O segundo desafio é o relevo íngreme, que dificulta a instalação de redes de sombreamento e a colheita”, observou Bertolucci.

Apesar dos investimentos significativos ao longo dos anos, do planejamento cuidadoso e das boas práticas agrícolas, os produtores da região continuam vulneráveis à crescente imprevisibilidade do clima.

Em 2023, chuvas intensas de setembro a agosto interromperam as fases de floração, polinização e fertilização das oliveiras no sul do Brasil”, lembrou Bertolucci. Apenas alguns produtores tiveram colheitas bem-sucedidas em 2024, o que foi decepcionante. A abertura oficial da colheita de 2024 foi realizada na Olivas do Gramado, já que nosso microclima nos protegeu dos graves impactos enfrentados pela maioria dos produtores gaúchos.” 

Em maio de 2024, no entanto, enfrentamos a maior tragédia climática da história do país. Chuvas torrenciais causaram inundações, deslizamentos de terra e danos à infraestrutura, inclusive em nossa propriedade, onde a principal via de acesso foi destruída”, acrescentou. “Tivemos que abrir uma estrada secundária e fazer investimentos significativos para reparar a que foi danificada.” 

Apesar desses contratempos, reabrimos a estrada de acesso principal em dezembro deste ano e não enfrentamos grandes problemas com as instalações turísticas, o lagar ou o olival”, continuou Bertolucci.

Outros desafios decorrem de doenças que podem afetar as oliveiras. 

Na Serra Gaúcha, os altos níveis de umidade e a neblina frequente exigem um monitoramento cuidadoso dos fungos, que se espalham facilmente nesse ambiente”, explicou Bertolucci. Outras doenças, como cochonilhas, pulgões e moscas-brancas, são menos comuns. Para manter nosso olival saudável, usamos fungicidas e inseticidas regulamentados para proteger as árvores.”

“Atualmente, estamos testando produtos orgânicos da Polônia em seções do nosso olival para avaliar a possibilidade de transição para um sistema de cultivo orgânico no futuro”, acrescentou.

O próximo passo envolve uma expansão ainda maior, com mais seis hectares de oliveiras que devem começar a produzir em breve.