O Último Carvoeiro de Sevilha
Há anos, as cidades espanholas tinham uma loja em cada bairro. José Luis Aguilar é o último comerciante de carvão vegetal de Sevilha.
Quando o Olive Oil Times perguntou a José Luis Aguilar por que ele é tão apaixonado pelo carvão vegetal, houve um momento de silêncio.
Parecia que era a primeira vez que lhe faziam essa pergunta e, pela expressão facial, ele deu a impressão de que achava aquilo óbvio. Após uma longa pausa, ele disse: “Cresci aqui brincando nessas pilhas de carvão. Tem sido o sustento da minha família há mais de um século”. Uma amiga que parou para cumprimentá-lo a caminho de casa acrescentou: “É o modo de vida dele”.
Anos atrás, as cidades espanholas tinham uma loja em cada bairro onde se podia comprar carvão. Hoje, Aguilar é o último comerciante tradicional de carvão em Sevilha.
Sua loja está decorada com objetos antigos cobertos de poeira preta, resultado de anos vendendo carvão, e seus preços estão listados em um quadro-negro. Ele cobra apenas 1,10 € por kg (0,50 $/lb) pelo carvão de carvalho-negral, ou “carbon de encina”, que vem de Zahino, uma pequena cidade na Extremadura.
Ele recomendava seu carvão para assar peixe, carne ou qualquer coisa que você quisesse deixar mais saborosa. Não há nada como carne assada lentamente na churrasqueira. Todos os clientes que entravam concordavam. Não havia nada igual.
No verão, os banhistas param para comprar um saco antes de saírem da cidade. Na primavera, os sevilhanos usam o carvão para preparar pratos favoritos, como espetinhos de frango marinado, linguiças e lombo de porco. Eles precisam se alimentar bem, já que passam inúmeras horas na Feira de Abril dançando, cantando e bebendo. No inverno, Aguilar diz que seus clientes compram o produto para usar no braseiro, uma cesta de fogo colocada sob a mesa para manter as pernas e os pés aquecidos.

José Luis Aguilar (Todas as fotos de Pepe Nieto)
Quando perguntado sobre comer o carvão, Aguilar riu. “Não. Isso não se come. É para cozinhar.” Ele pensou por um segundo e então se lembrou de uma história que ouviu certa vez sobre um grupo de macacos africanos que comiam carvão vegetal para ajudar a digerir uma planta venenosa da qual se alimentavam. Talvez, disse ele, mas isso era com macacos.
Padeiros e chefs, no entanto, estão demonstrando que o carvão não serve apenas para churrasco e braseiro de inverno. O carvão ativado, especialmente preparado para ter carga negativa, agora está aparecendo em pães, doces e outros pratos gourmet. Pode ser divertido ver um pão todo preto, mas será que é melhor do que o pão fatiado?
Há evidências históricas de que o carvão vegetal tem sido usado medicinalmente desde o Antigo Egito para ajudar na digestão. Um estudo do século XVII demonstrou que o carvão ativado possuía propriedades capazes de absorver diversas substâncias. O químico francês Gabriel Bertrand comprovou isso mais tarde ao sobreviver após engolir uma dose letal de trióxido de arsênico misturado com carvão ativado.

Acredita-se que a tendência de misturar carvão ativado na massa de pão e em outros alimentos ajude na digestão, reduzindo a flatulência e o inchaço. No entanto, muitos médicos concordam que não há evidências suficientes sobre sua eficácia e que o consumo desse ingrediente deve ser feito com moderação.
Segundo Alessandro Targhetta, especialista em medicina homeopática e fisioterapia, “há uma quantidade muito pequena de carvão na massa de pão para torná-lo mais digestível e ainda menos para ajudar a reduzir o inchaço abdominal”. Ele acredita que o único remédio eficaz é tomar suplementos de carvão ativado.
No entanto, ele adverte que os remédios naturais não devem ser menosprezados, pois podem causar efeitos colaterais indesejados. O consumo diário de carvão ativado pode reduzir a eficácia de anticoncepcionais, medicamentos para diabetes e para a tireoide.
Além disso, o carvão ativado (E153) foi proibido nos Estados Unidos e na Europa em produtos de panificação devido ao seu teor de benzopireno, um carcinógeno derivado da madeira.
Veredicto final? O carvão ativado, em suas formas legais, pode adicionar um toque único a um prato, mas não é um ingrediente que deva ser consumido em excesso.