Política brasileira: 10, Azeite: 0
Os produtores de azeite, como Rafael Marchetti, encontram-se em uma situação sem saída. Embora seu nicho no setor alimentício seja bem-vindo e necessário no Brasil, a turbulência política e econômica que assola o país não parece que vai acabar tão cedo.
Ouvir o podcast do Olive Oil Times (3ª temporada, episódio 2) foi um forte lembrete de como um clima político tenso pode prejudicar setores de nicho, mas promissores.
Durante a entrevista, Rafael Marchetti, produtor de azeite de oliva da empresa da família, a Tecnoplanta, que oferece oportunidades de investimento completas no setor de azeite de oliva do Brasil, reiterou que as atuais crises políticas e econômicas que assolam o país têm impedido o crescimento de seu negócio, outrora em franca expansão.
Isso não foi nenhuma surpresa para mim. Nos últimos seis a oito meses, tornou-se evidente, enquanto eu passeava pelas ruas do nordeste do Brasil, que há mais vendedores ambulantes informais vendendo seus produtos. Para ajudar a complementar um salário mínimo já insuficiente (R$ 880 por mês, ou cerca de US$ 263 pela taxa de câmbio atual), as pessoas vendem milho, pipoca, doces, batatas fritas e outros itens alimentícios e petiscos aleatórios para pagar as contas. Azeite de oliva? Esse condimento e óleo de cozinha não é o melhor negócio de rua em tempos difíceis.
Curtis Cord, editor do Olive Oil Times, começou a entrevistar Marchetti com uma pergunta suave: “Então, só para quebrar o gelo, o que você acha do presidente Trump?” Não é uma maneira convencional de iniciar uma discussão em um podcast sobre a produção de azeite de oliva extravirgem no Brasil. No entanto, a crise política no Brasil não é radicalmente diferente do que ocorreu nas eleições presidenciais dos EUA em 2016 e tem muito a ver com o declínio
de um ano nas vendas de azeite de oliva
no país.
Lembre-se de que o setor ainda se recuperava de um estudo da Proteste de 2013, que concluiu que apenas 8 das 19 marcas de azeite extravirgem comercializadas no Brasil podiam ser genuinamente consideradas extravirgens. E agora, o Brasil continua envolvido em uma crise que está dilacerando não apenas o nicho da indústria de azeite extravirgem gourmet, mas também a nação como um todo.
Então, como a eleição de Donald Trump pode revelar alguns dos problemas políticos atuais do Brasil? Acima de tudo, a vitória de Trump pelo colégio eleitoral (sem necessidade de voto popular) lembra a destituição de Dilma Rousseff, a primeira mulher a ocupar a presidência do Brasil.
Apesar de o Ministério Público Federal ter considerado Rousseff inocente de qualquer crime, ela, que havia sido reeleita democraticamente em 2014, foi destituída do cargo em agosto. Esse drama político foi parcialmente motivado pelas infames investigações da Operação Lava Jato, que abalaram quase todos os aspectos da política brasileira nos últimos anos. Insinuações circularam desenfreadamente sobre o envolvimento de Rousseff em um ou outro crime. No entanto, no fim das contas, apenas seus adversários políticos mais ferrenhos, muitos dos quais permanecem no cargo, foram formalmente implicados ou acusados de crimes reais pelas autoridades.
A BBC Brasil publicou recentemente um artigo intitulado “Corrida presidencial 2018 pode ter Trump brasileiro”. Minha resposta foi que eles já têm um presidente Trump com este governo recém-empossado. As crises política e econômica só se agravaram desde a destituição de Rousseff. Em seu lugar assumiu o vice-presidente, Michel Temer. Sua robusta proposta de austeridade (MEC 241) visa congelar por 20 anos todos os gastos públicos, bem como alterar o currículo da educação pública (uma das mudanças inclui uma regra que proíbe debates políticos no ensino médio).
Em protesto contra as propostas de Temer, estudantes do ensino médio ocuparam centenas, senão milhares, de escolas em todo o país; sindicatos e organizações sociais levaram suas reivindicações às ruas e, enquanto escrevo, uma greve nacional está sendo organizada para o dia 25 de novembro.
Como Marchetti aludiu durante sua entrevista, a queda de um ano nas vendas de azeite de oliva produzido localmente está diretamente relacionada às crises econômicas e políticas que se intensificaram ao longo do último ano. Os dados que sustentam essa correlação são escassos. No entanto, enquanto o desemprego no Brasil chega a 11,6%, tornando-o o sétimo maior mercado de desemprego em uma pesquisa com 51 países, os preços de alimentos como feijão preto, feijão carioca, arroz, batata, cebola, alho e, é claro, azeite de oliva, subiram. Desde o início de 2016, o feijão carioca, um alimento básico e um dos tipos de feijão mais consumidos no Brasil, teve um aumento de 54%.
Inevitavelmente, produtores de azeite extravirgem gourmet como a Marchetti se veem em uma situação sem saída. Embora sua indústria de alimentos de nicho seja bem-vinda e necessária no Brasil, a turbulência política e econômica que assola o país não parece que vai acabar tão cedo.
Apesar de tudo, eles seguem em frente, assim como as rodas de pedra usadas para prensar azeitonas nos bons velhos tempos. Mas agora, grande parte de seu trabalho envolve educar o público sobre a qualidade e o frescor do azeite produzido localmente. Isso não apenas reduz nossa pegada de carbono, como também pode ajudar a impulsionar uma economia estagnada.