Relatório da ONU afirma que a maior parte dos gastos com agricultura traz mais prejuízos do que benefícios

Grande parte dos US$ 540 bilhões destinados anualmente ao setor agrícola prejudica o meio ambiente, afeta populações vulneráveis e gera desigualdades no mercado.

Uma parte significativa do financiamento público global destinado à agricultura prejudica a saúde das pessoas, degrada o meio ambiente, distorce os preços dos alimentos e é altamente ineficiente, afirma um relatório das Nações Unidas.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) afirmou que os fundos também costumam ser injustos, favorecendo o grande agronegócio em detrimento dos pequenos agricultores. O objetivo do relatório é pressionar por novas políticas de financiamento agrícola em todo o mundo.

Reformar as políticas agrícolas não significa retirar o apoio aos agricultores, mas sim redirecioná-lo de forma a recompensar as boas práticas. – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, 

O relatório constatou que 87% desses US$ 540 bilhões (€ 457 bilhões) em financiamento público global estão causando mais danos do que benefícios. Esses fundos globais representam 15% do valor total da produção agrícola.

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Desse montante, cerca de US$ 294 bilhões (€ 249 bilhões) foram fornecidos na forma de incentivos de preço e cerca de US$ 245 bilhões (€ 207 bilhões) para subsídios fiscais aos agricultores. Enquanto isso, 70% foram vinculados à produção de uma commodity específica.

“Apenas US$ 110 bilhões (€ 93 bilhões) foram usados para financiar transferências para o setor agrícola coletivamente, na forma de serviços gerais ou bens públicos”, afirma o relatório.

A FAO, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente destacaram que o relatório não pede que o financiamento público seja interrompido, mas sim que seja reformulado.

As projeções da ONU mostram que, sob as políticas atuais, o financiamento público global para a agricultura ultrapassaria US$ 1,8 trilhão (€ 1,5 trilhão) até 2030, o que, segundo eles, também causaria mais danos, a menos que seja traçado um caminho claro para a reforma.

“Cerca de 73% desse montante, US$ 1,3 trilhão (€ 1,1 trilhão), seria na forma de medidas de fronteira, que afetam o comércio e os preços no mercado interno”, diz o relatório. “Os 27% restantes, US$ 475 bilhões (€ 402 bilhões), seriam na forma de subsídios fiscais que apoiam os produtores agrícolas e poderiam continuar a promover o uso excessivo de insumos e a superprodução.”

O atual apoio público à agricultura não funciona, escreveram os pesquisadores. A desnutrição ainda afeta 9,9% da população global. Em 2020, mais de 720 milhões de pessoas no mundo enfrentaram a fome e 2,37 bilhões de pessoas – cerca de um terço da população global – não tiveram acesso a alimentação adequada.

Os pesquisadores também destacaram que, em 2019, uma alimentação saudável estava fora do alcance de pelo menos três bilhões de pessoas em todos os continentes.

“Ao mesmo tempo, o crescimento populacional está resultando em uma demanda cada vez maior por alimentos”, afirmou a FAO. “Esses desafios foram exacerbados pela pandemia da Covid-19, que corre o risco de sobrecarregar os sistemas alimentares.”

Além disso, o relatório cita as conclusões do Relatório Planeta Vivo 2020, produzido pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), que mostrou que “a conversão de terras para a agricultura levou a 70% da perda global de biodiversidade e à metade de toda a perda de cobertura arbórea”.

“Estima-se que 1,9 milhão de quilômetros quadrados de terras selvagens e não desenvolvidas tenham sido perdidos devido à conversão de terras para a agricultura”, acrescentou o WWF. “De 1980 a 2000, mais da metade das novas terras para a agricultura nos trópicos veio do desmatamento de florestas intactas. Da mesma forma, para o período de 2000 a 2010, estima-se que 80% do desmatamento nessas áreas tenha sido resultado da conversão em terras agrícolas e de pastagem.”

O novo relatório da ONU surge antes de várias cúpulas internacionais, como a COP26, e tem como objetivo oferecer seis recomendações para mudar o curso de ação a governos e instituições.

Os pesquisadores acreditam que, se corretamente concebido e implementado, o financiamento público à agricultura pode “contribuir para o fim da pobreza, superar a fome e alcançar a segurança alimentar, ao mesmo tempo em que melhora a nutrição, promove a agricultura, o consumo e a produção sustentáveis, mitiga a crise climática, restaura a natureza, limita a poluição e reduz as desigualdades.”

“Uma abordagem transparente e com múltiplas partes interessadas é parte integrante do processo de reorientação em seis etapas”, afirma o relatório. “A transparência e as consultas inclusivas são fundamentais para lidar com os gargalos institucionais e os interesses particulares que poderiam impedir a reforma e a implementação eficaz da estratégia.”

“A reforma do apoio à agricultura suscita preocupações quanto à redução da renda e à acessibilidade dos alimentos, e provavelmente encontrará oposição por parte dos agricultores que se beneficiam do sistema atual”, acrescenta o relatório. “É, portanto, crucial comunicar que a reforma das políticas agrícolas não se trata de retirar o apoio aos agricultores, mas de redirecioná-lo de modo a recompensar boas práticas, em vez de perpetuar práticas que ameaçam a estabilidade dos sistemas alimentares, o bem-estar dos agricultores e o meio ambiente.”

“Exortamos os países a aproveitarem esta oportunidade e a considerarem opções para redirecionar o apoio à agricultura”, escreveram os diretores das agências alimentares da ONU envolvidas na introdução do relatório.

“Parlamentares, tomadores de decisão, agricultores, fabricantes, produtores, distribuidores, consumidores e todas as outras partes interessadas dos sistemas agroalimentares, incluindo mulheres, jovens, povos indígenas e comunidades locais – todos nós devemos nos organizar para desviar nosso apoio agrícola de sua trajetória atual”, concluíram os diretores.