O mundo não está cumprindo as metas de redução de emissões prometidas no Acordo de Paris

Há cinco anos, em Paris, delegações de 191 países se comprometeram a reduzir as emissões em 45%, mas a situação só piorou.

De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), os compromissos globais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa não são suficientes para conter o aquecimento global.

O relatório “United in Science 2021” alertou que cada um dos próximos cinco anos apresentará temperaturas pelo menos 1 ºC mais altas do que os níveis pré-industriais.

Precisamos construir uma solidariedade global. Tanto na pandemia quanto na emergência climática, ninguém está seguro até que todos estejam seguros.– Mohamed Adow, diretor da Power Shift Africa

Em comparação com as temperaturas médias do período de 1850 a 1900, a partir de 2022 o mundo registrará um aumento de temperatura de 0,9 °C a 1,8 °C. Até 2030, esse aumento poderá ser ainda maior.

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“Há 40% de chance de que a temperatura média em um dos próximos cinco anos seja pelo menos 1,5 °C mais quente do que os níveis pré-industriais”, alertou o relatório. “No entanto, é muito improvável que a temperatura média de cinco anos para o período de 2021 a 2025 ultrapasse o limite de 1,5 °C.”

As projeções se baseiam em uma ampla gama de fontes, uma das quais são os dados de emissões de gases de efeito estufa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que traçam um cenário global em rápido agravamento.

O PNUMA estimou que, cinco anos após o Acordo de Paris, a chamada lacuna de emissões continua tão grande quanto sempre foi. A lacuna de emissões é a diferença entre a redução das emissões globais que os cientistas haviam solicitado até 2030 e o rumo que elas estão realmente tomando.

“No ano passado, estimamos que houve uma queda de 5,6% nas emissões e, como a vida útil do dióxido de carbono é tão longa, essa anomalia de um ano nas emissões não altera o panorama geral”, disse Petteri Taalas, secretário-geral da OMM, referindo-se aos efeitos da pandemia de Covid-19 em 2020.

“Vimos algumas melhorias na qualidade do ar”, acrescentou ele. “Vimos uma evolução positiva nesse aspecto. Mas agora voltamos mais ou menos aos níveis de emissões de 2019.”

O Acordo de Paris exige que os países elaborem planos estratégicos nacionais com o objetivo de limitar as emissões e prever seu equilíbrio futuro.

Os países signatários concordaram em tentar impedir que as temperaturas excedam 2 ºC acima dos níveis pré-industriais, com um esforço especial para mantê-las abaixo de 1,5 ºC. Dos 191 países que assinaram o acordo, apenas 113 apresentaram seus planos nacionais.

De acordo com o relatório da OMM, considerando os compromissos e as estratégias de emissão já implementadas ou anunciadas, as emissões globais devem aumentar 16% até 2030, bem acima da redução de 45% que os cientistas da ONU consideram a única maneira de atender às expectativas do Acordo de Paris.

“Ainda não estamos no caminho certo para atingir o limite de 1,5 a 2 graus de Paris, embora coisas positivas tenham começado a acontecer e o interesse político em mitigar as mudanças climáticas esteja claramente crescendo”, acrescentou Taalas. “Mas, para ter sucesso nesse esforço, temos que começar a agir agora. Não podemos esperar décadas para agir, temos que começar a agir já nesta década.”

De acordo com a análise da ONU, um aumento de 16% pode levar a um aumento da temperatura global de até 2,7 ºC, excedendo em muito a meta do Acordo de Paris.

“Um aumento de 16% é motivo de grande preocupação”, disse Patricia Espinosa, principal negociadora climática da ONU, à BBC.

“Isso contrasta fortemente com os apelos da ciência por reduções rápidas, sustentadas e em grande escala das emissões para evitar as consequências climáticas mais graves e o sofrimento, especialmente dos mais vulneráveis, em todo o mundo”, acrescentou ela.

De acordo com um relatório do World Resources Institute e da Climate Analytics citado pela BBC, Turquia, Arábia Saudita, Índia e China são responsáveis por 33% de todas as emissões de gases de efeito estufa, mas nenhum deles apresentou ainda seu próprio plano estratégico. Outros países, como México, Brasil e Rússia, alertaram que suas emissões continuarão crescendo.

Enquanto muitos países industrializados se preparam para a conferência internacional sobre o clima COP26, a ser realizada em Glasgow a partir de 31 de outubro, outras nações estão começando a analisar os custos tanto da ativação de seus próprios planos estratégicos quanto das consequências do próprio aquecimento global.

Um relatório do think tank queniano Power Shift Africa alertou os governos africanos que lutam para se recuperar dos efeitos da pandemia da Covid-19 de que “um foco restrito na recuperação econômica que ignore as mudanças climáticas e os objetivos mais amplos do desenvolvimento sustentável custará à África mais sofrimento econômico a longo prazo”.

De acordo com o Power Shift Africa, as mudanças climáticas devem ser colocadas no centro dos planos de recuperação econômica em todo o continente.

O relatório “Impulsionando uma Recuperação Verde e Sustentável pós-Covid-19 na África” reconhece os esforços em andamento de alguns países, como a Nigéria, onde serão instalados cinco milhões de sistemas solares domésticos fora da rede.

“A pandemia é um momento de reinício, para nos afastarmos de bilhões de investimentos em combustíveis fósseis condenados”, disse Mohamed Adow, diretor da Power Shift Africa, à AFP. “A África é abençoada com sol e vento; isso deve ser a base da nossa recuperação.”

Segundo Adow, os países mais ricos devem cumprir suas promessas e conceder às nações vulneráveis às mudanças climáticas os US$ 100 bilhões prometidos, necessários para reduzir as emissões e oferecer novos caminhos para o desenvolvimento.

“Precisamos construir uma solidariedade global”, disse ele. “Na pandemia, assim como na emergência climática, ninguém está seguro até que todos estejam seguros.”