Pesquisa mostra que as folhas de oliveira apresentam níveis mais elevados de fenóis no verão
A colheita de verão pode proporcionar os melhores resultados para o número crescente de agricultores e empresas que investem em produtos derivados da folha de oliveira.
Cientistas demonstraram que a composição química das folhas de oliveira pode depender da época do ano em que são colhidas.
Pesquisadores no Brasil concentraram seu estudo em três cultivares bem conhecidas em um único pomar, medindo seu teor de polifenóis e outras características.
As estações do ano têm forte influência no teor de compostos bioativos, com teores mais elevados sendo observados para a maioria dos compostos nas folhas no verão.
Suas descobertas mostram que algumas variedades de oliveira podem oferecer um perfil antioxidante e fenólico significativamente mais alto do que outras, e que a colheita no verão pode proporcionar os melhores resultados para o número crescente de agricultores e empresas que investem em produtos derivados da folha de oliveira.
“Investigamos as oliveiras das variedades Arbequina, Manzanilla e Picual”, disseram Alexandre Lorini e Deborah Murowaniecki Otero, dois dos autores do estudo, ao Olive Oil Times. “Passamos aproximadamente um ano coletando as amostras das árvores e mais um ano realizando as análises, tanto em laboratório quanto com análises estatísticas.”
Veja também: Notícias de pesquisaOs cientistas coletaram amostras de folhas de 50 árvores de cada uma das três variedades de oliveira no final de cada estação. Eles monitoraram as temperaturas diárias do pomar localizado na região mais ao sul do Brasil, no Rio Grande do Sul, bem como a radiação solar a que as árvores foram submetidas ao longo do ano. Todas as árvores examinadas foram cultivadas sob as mesmas condições agronômicas e ambientais, nos mesmos olivais de uma propriedade privada.
“O clima ao qual as árvores estão expostas varia de acordo com as estações”, afirmaram os dois pesquisadores. “Nas estações quentes, temos temperaturas que podem chegar a cerca de 40 °C, além de uma radiação solar média acima de 15 megajoules por metro quadrado por dia, enquanto nas estações frias as temperaturas podem cair para 0 °C e a radiação solar fica abaixo de 15 megajoules por metro quadrado por dia.”
Nas condições distintas das diferentes estações, os cientistas coletaram cerca de cinco quilos de folhas, que foram então reunidas em um reservatório específico e levadas ao laboratório de cromatografia da Universidade Federal de Pelotas. O material foi triturado e moído em um moinho com o auxílio de nitrogênio líquido, armazenado em embalagens de polietileno e mantido a −112 °F (–80 ºC).
O objetivo dos pesquisadores foi quantificar os compostos fenólicos (apigenina, ácido hidroxibenzóico, kaempferol, luteolina, oleuropeína, quercetina, rutina e tirosol), determinar o total de flavonóides, medir os taninos hidrolisáveis e o teor de taninos condensados, bem como o total de carotenóides e clorofilas.
“Percebemos neste trabalho que a variação climática que ocorre nas estações do ano no local onde as árvores são plantadas afeta a composição metabólica”, afirmaram os dois pesquisadores. “O mesmo efeito nem sempre ocorre em todas as cultivares, o que mostra que cada cultivar pode se adaptar de maneiras diferentes.”
“As estações quentes influenciam a síntese de compostos polares, como ácidos fenólicos e flavonóides, em todas as cultivares que testamos”, acrescentaram. “Os compostos não polares, como carotenóides e clorofilas, são afetados de maneiras diferentes: na cultivar Arbequina, houve maior síntese na transição para as estações frias, enquanto nas cultivares Manzanilla e Picual, houve um aumento na transição para as estações quentes.”
Os resultados mostram que, para o total de compostos fenólicos, flavonóides e taninos hidrolisáveis nas folhas, não há interação entre as cultivares e as estações. Assim, as estatísticas das variáveis separadas mostraram que as folhas da cultivar Manzanilla apresentam concentrações mais elevadas de compostos fenólicos e taninos hidrolisáveis.
Ainda assim, ao avaliar apenas as estações e sua contribuição para o aumento de certos compostos bioativos, observou-se que o inverno foi a estação durante a qual ocorreu a menor síntese de compostos fenólicos.
“No verão, foi possível observar uma maior síntese desses compostos, o que indica que a temperatura tem influência direta no mecanismo, em que altas temperaturas podem resultar na ativação de mecanismos de proteção da oliveira e, consequentemente, induzir uma maior síntese desses compostos”, escreveram os pesquisadores no estudo.
Veja também: Painel rejeita alegação de saúde para extrato de folha de oliveiraQuanto ao teor dos compostos fenólicos investigados, os pesquisadores observaram que as folhas da variedade Manzanilla apresentaram quantidades mais elevadas de apigenina, ácido hidroxibenzóico e tirosol ao longo do ano.
O mesmo foi observado nas folhas da cultivar Arbequina, no que diz respeito ao teor de kaempferol e luteolina. Os maiores teores de oleuropeína e rutina foram observados em todas as estações nas folhas da cultivar Picual.
A maior atividade antioxidante foi observada no extrato das folhas da Manzanilla, enquanto os fenólicos individuais apresentaram interação significativa entre cultivares e estações do ano, “demonstrando que as estações do ano exercem forte influência sobre o teor de compostos bioativos, com teores mais elevados observados para a maioria dos compostos nas folhas durante o verão”, escreveram os pesquisadores.
“Por fim, a hipótese testada foi comprovada, revelando que as cultivares escolhidas para o plantio, bem como as mudanças climáticas existentes com as mudanças de estação, afetam o perfil metabólico das folhas de oliveira (Olea europaea L.)”, acrescentaram.
Embora os resultados ofereçam pistas para os produtores locais, os pesquisadores não sabem se esses resultados poderiam ser válidos em outros lugares, incluindo na bacia do Mediterrâneo, o berço evolutivo da oliveira.
“Não conhecemos muito bem o clima mediterrâneo, mas em nossas leituras, vimos que há uma diferença entre o verão e o inverno, assim como na região onde nosso experimento foi realizado”, afirmaram os cientistas. “Levando isso em conta, acreditamos que os resultados possam ser semelhantes, mas são necessárias mais pesquisas. Acreditamos que esse tipo de estudo seria muito interessante.”
A pesquisa, explicaram os dois autores, pode oferecer novos insights para os consumidores de extratos e produtos de folhas de oliveira, bem como para a indústria farmacêutica.
No entanto, um segundo aspecto, observaram os cientistas, “é mostrar à indústria de extração de azeite que, na época em que colhem as azeitonas, temos um certo teor de compostos e que eles podem aproveitar as folhas para enriquecer seus azeites.”