O icônico café da manhã libanês recebe reconhecimento da UNESCO

O al-man’ouché, um doce libanês tradicional servido no café da manhã, temperado com azeite de oliva e especiarias tradicionais, foi incluído na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO.

O aroma do al-man’ouché permeia cada esquina do Líbano. Esse prato onipresente no café da manhã foi reconhecido na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

No coração de Beirute, Mohamed Whehbi vem vendendo man’aish (plural de al-man’ouché) no bairro de Hamra há dois anos.

No interior, há um forno tradi­ci­onal sob o qual queima lenha. Ali, o chef, achata um pequeno pedaço de massa. Ele corta a borda e coloca uma mistura de za’atar e azeite de oliva por cima. Em seguida, coloca a massa achatada sobre uma grande almofada antes de a introduzir no forno a lenha.

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Este forno e o pão (pão tannour) têm mil anos”, disse Wehbi. “É assim que nossos antepassados costumavam assar. Aqui no Líbano, mas também na Síria, no Iraque e no Paquistão, fazemos o mesmo. E as pessoas gostam porque é uma comida saudável.”

O nome al-man’ouché vem da palavra árabe manqūshah, que descreve o processo de criação do prato. Depois que a massa é estendida, ela é pressionada com as pontas dos dedos para criar recortes para as coberturas. Manqūshah vem do verbo naqasha, que significa esculpir.

Mais perto do porto de Beirute, o mercado Souk-el-Tayeb acontece todos os sábados de manhã. É lá que Rima Shaaban vende saj, outro tipo de al-man’ouché.

De acordo com a UNESCO, o al-man’ouché varia de uma padaria para outra, com receitas tradicionais de família transmitidas de geração em geração. (Foto: Bernard Jabre)

De acordo com a UNESCO, o al-man’ouché varia de uma padaria para outra, com receitas tradicionais de família transmitidas de geração em geração. (Foto: Bernard Jabre)

Shaaban vem todas as semanas com a filha, o filho e o marido e assa a pequena massa que vem preparando em casa.

Depois, eu a achato para deixá-la bem fina e coloco em cima do fogão, que é como uma cúpula”, explicou a chef, que também é dona de um restaurante perto da montanha Chouf, nos arredores de Beirute.

Shaaban acrescenta vários ingredientes: azeite, za’atar, queijos, peru, tomates ou qualquer outra coisa que seus clientes peçam.

Faço man­aish desde os sete anos de idade”, disse ela. Eu costumava sentar atrás da minha avó e observá-la.”

Agora, faço isso para ajudar minha família também, porque este é o meu negócio”, acrescentou Shaaban, com um grande sorriso, com a filha ao seu lado.

Essa tradição familiar também é muito importante para Bera Chibaro, uma mulher canadense-libanesa que acabou de voltar da América do Norte.

O al-man’ouché é preparado em um forno tradicional de lenha em forma de cúpula nas padarias de todo o Líbano. (Foto: Ohaila Mortada)

O al-man’ouché é preparado em um forno tradicional de lenha em forma de cúpula nas padarias de todo o Líbano. (Foto: Ohaila Mortada)

Desde que voltou para Beirute, ela vem todos os sábados para saborear o al-man’ouché de Shaaban. Isso a faz lembrar de sua infância em Beirute.

“Sabe, a gente cresceu com o cheiro do al-man’ouché todas as manhãs”, disse Chibaro. “Dá pra encontrar um em cada bairro aqui no Líbano.”

Toda casa tem uma loja que vende man’aish bem ao lado”, ela contou antes de pegar um prato enorme cheio de man’aish.

Em Trípoli, a segunda maior cidade do Líbano, localizada ao norte de Beirute, os aromas de azeite e za’atar assando lentamente no pão estão por toda a cidade.

Mohamed El Abed coloca cinco man­aish em um grande forno cercado por chamas. Ganhando a vida com essa padaria, ele também se sente muito orgulhoso de ver o prato na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO.

É uma notícia muito boa”, disse ele. É ótimo, é claro, porque é uma refeição importante para os libaneses, significa muito para nós e também é única.”

Barbara Massaad, autora de muitos livros de culinária, também está muito feliz com essa inscrição. Ela visitou mais de 250 padarias por todo o Líbano para recontar as histórias por trás do man’aish.

O consumo e a produção do al-man’ouché em todo o país contribuem para o desenvolvimento econômico local.

O consumo e a produção do al-man’ouché em todo o país contribuem para o desenvolvimento econômico local.

Este anúncio é uma estrela brilhante em um céu escuro para muitos libaneses, duramente atingidos pela mais grave crise econômica dos últimos quatro anos e agora à beira de uma escalada do conflito em curso entre o Hezbollah e Israel.

“Sabe, precisamos aproveitar cada pedacinho de felicidade, e isso faz toda a diferença”, disse Massaad. Porque, quando acordamos de manhã, não sabemos o que esperar. Temos vivido um pesadelo nos últimos quatro anos.”

Nossa vida virou completamente de cabeça para baixo”, acrescentou ela. Então, sabe, essa pequena vitória, esse reconhecimento de que isso nos pertence, de que o al-man’ouché é nosso e que ninguém pode roubá-lo: isso é ótimo. É o nosso al-man’ouché.”

Algumas pessoas já não têm condições de comprar al-man’ouché, duramente atingidas pela crise econômica e pela inflação, que atingiu mais de 200% em setembro.

Mas, no fim das contas, seja em casa com a família e os amigos ou na padaria favorita, o al-man’ouché sempre fará parte do Líbano. Está gravado nos estômagos, nos corações e nas mentes dos libaneses.