Com raízes na tradição, o produtor por trás do Azeite 4C volta seu foco para a qualidade

O produtor sediado no Alentejo superou uma colheita difícil para conquistar dois prêmios no Concurso Mundial de Azeite de 2025 e está otimista em relação à próxima colheita.

Situada no município português de Serpa, na região sul do Alentejo, as tradicionais culturas de trigo, cevada e aveia compartilham um solo fértil e rico em argila com pastagens de ovelhas, vinhedos, olivais e montados de sobreiros.

Gerenciamos pouco mais de 10.000 oliveiras em uma área que é tradicionalmente uma zona de produção de azeite desde a época romana”, disse Francisco Lopes, proprietário da Azeite 4C, ao Olive Oil Times.

As árvores estão distribuídas por quatro parcelas de terra, com tamanhos que variam de cinco a dez hectares, em uma área recentemente equipada com sistema de irrigação.

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O solo é excelente, predominantemente argiloso com algum calcário. O clima é mediterrâneo, com verões quentes e invernos relativamente amenos”, disse Lopes.

Francisco Lopes (à esquerda) com o gerente de operações Nuno Paixão (Foto: Azeite 4C)

Francisco Lopes (à esquerda) com o gerente de operações Nuno Paixão (Foto: Azeite 4C)

A Azeite 4C conquistou um Prêmio de Ouro e um Prêmio de Prata no Concurso Mundial de Azeite NYIOOC 2025 com as azeitonas Frantoio e Cobrançosa, as principais variedades cultivadas na propriedade.

Cada variedade tem seu sabor peculiar. É por isso que comercializamos apenas azeites monovarietais”, explicou Lopes.

A colheita anterior, que rendeu os azeites premiados, não foi fácil na região da Azeite 4C, localizada na maior área produtora de azeite de Portugal.

Em 2024, o inverno e a primavera foram bastante secos, enquanto no outono enfrentamos chuvas frequentes”, disse Lopes. Isso complicou muito a colheita, dificultando a garantia de uma produção de azeite de alta qualidade.”

No entanto, a próxima campanha agrícola de 2025/26 parece promissora. Este ano, o inverno foi ameno, mas excepcionalmente chuvoso. As árvores se recuperaram maravilhosamente, e a floração atual é impressionante e bela. Ainda estamos longe do fim da temporada, mas pode ser um ano excelente”, disse Lopes.

Para seus pomares intensivos, a empresa adotou um sistema de irrigação por gotejamento e segue um protocolo de produção integrada.

A Azeite 4C ganhou um Prêmio Ouro pelo seu azeite monovarietal Frantoio de intensidade média. (Foto: Azeite 4C)

A Azeite 4C ganhou um Prêmio Ouro pelo seu azeite monovarietal Frantoio de intensidade média. (Foto: Azeite 4C)

Graças a essa abordagem, nosso objetivo é produzir de forma sustentável, utilizando práticas de controle tanto biológicas quanto químicas, ao mesmo tempo em que priorizamos os mecanismos naturais de regulação”, explicou Lopes.

Segundo Lopes, aspectos cruciais da atividade da fazenda incluem técnicas de manejo do solo que mantêm a fertilidade, ao mesmo tempo em que garantem a saúde e a produtividade das oliveiras.

Fertilização adequada, poda, controle de pragas e doenças e colheita mecânica são rotinas bem estabelecidas nas operações da fazenda, e todas elas, segundo Lopes, exigem atenção constante aos olivais.

Isso significa ser capaz de cultivar azeitonas saudáveis, compreender o momento certo para a colheita e agir com rapidez e precisão no processamento. Em poucas palavras, ter conhecimento e um forte desejo de fazer as coisas com perfeição”, disse ele.

Embora a Azeite 4C tenha sido fundada em 2016, a experiência de Lopes na produção de azeite é muito mais profunda.

Minha família administrou um grande lagar tradicional de azeite por mais de 50 anos, equipado com prensas hidráulicas, sistemas de extração de bagaço de azeitona e girassol, e uma refinaria de azeite”, disse Lopes.

Estudei engenharia química e trabalhei com minha família por cerca de quatro anos. Decidi retomar a tradição familiar dez anos após minha aposentadoria, aos 74 anos”, acrescentou.

Essa experiência significativa destaca as enormes diferenças entre a atual produção premiada de azeite extravirgem de Lopes e as práticas tradicionais do passado da região.

Há um mundo de diferença. Tradicionalmente, as azeitonas eram recolhidas do chão em dezembro, janeiro ou até mais tarde. Elas estavam maduras demais, cheias de vermes”, disse ele. Naquela época, o azeite era extraído vários dias após a colheita, quando as azeitonas já estavam parcialmente fermentadas. O azeite resultante tinha pouco em comum com a produção atual.”

Hoje, a produção baseia-se no transporte de azeitonas saudáveis e recém-colhidas para os lagares, para processamento imediato”, acrescentou. “Hoje em dia, as chaves para a qualidade residem na qualidade das azeitonas, no momento certo do processamento e na limpeza absoluta dos equipamentos.”

Um dos principais desafios para os produtores da região continua sendo a falta de mão de obra especializada.

A falta de mão de obra é um grande problema. Atualmente, a maior parte vem da Índia, do Nepal e do Paquistão”, disse Lopes. Embora haja mecanização, os custos são muito altos. Isso está incentivando os agricultores a migrar de plantações intensivas para superintensivas.” 

“As mudanças climáticas complicam a situação, especialmente para aqueles sem irrigação. Temos sorte nesse aspecto”, acrescentou.

Sinais encorajadores para os produtores focados na qualidade vêm da crescente conscientização entre os consumidores.

“As coisas estão a avançar agora”, disse Lopes. Isso porque a produção de azeite tem sido notícia frequente em Portugal, e o país está entre os principais produtores tanto em qualidade como em volume.” 

Embora a fazenda venda uma parte significativa de sua produção por meio de lojas especializadas em Portugal, suas exportações são direcionadas principalmente para a França, Bélgica, Polônia e Hungria.

Segundo Lopes, as perspetivas para os produtores de azeite de qualidade são promissoras, e novos empreendedores e agricultores podem encontrar oportunidades no setor.

Como per­feiço­nis­ta, eu en­corajaria qualquer pessoa inter­es­sada a primeiro aprender sobre a cul­tura da a­ma­ndoa e a qual­idade do a­zeite”, disse ele. “Seja disciplinado, observe as árvores regularmente e aja prontamente com os serviços necessários para desenvolver e proteger os olivais.”

Sejam humildes e respeitem a natureza. Sejam apaixonados e coloquem a qualidade em primeiro lugar”, concluiu.