Descoberta de cultivo antigo de oliveiras na Sicília desafia crenças anteriores

Pesquisadores descobriram evidências de cultivo antigo de oliveiras na Sicília, 1.000 anos antes do que se pensava, por meio de análises de pólen e análises históricas.

Há 3.700 anos, já existiam formas antigas de cultivo da oliveira na Sicília, quase 1.000 anos antes do que se acreditava anteriormente.

A revelação vem da análise do pólen liberado pela vegetação local ao longo de milhões de anos. Ao examinar camadas de sedimentos ricas em pólen, os pesquisadores conseguiram identificar pólen de oliveira entre muitos outros tipos.

Não havia arado, nem nenhum dos equipamentos que conhecemos hoje. A possibilidade de cultivar e revolver o solo de uma maneira específica simplesmente não existia. — Jordan Palli, coautor do estudo, da Universidade de Tuscia

Isso também permitiu que eles determinassem o momento em que o pólen de oliveira se tornou predominante, mostrando sinais claros de cultivo de oliveiras.

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A pesquisa investigou o conteúdo dos sedimentos na área de Pantano Grande, perto do Lago Ganzirri — a poucos passos das míticas correntes turbulentas de Caríbdis e das cavernas rochosas de Cila no Estreito de Messina.

É uma área muito interessante, pois atravessar o estreito permitiu que gerações de marinheiros vindos do Ocidente, do Oriente e do Norte da África tivessem acesso à Península Italiana pelo Mar Tirreno”, disse Jordan Palli, coautor do estudo e pesquisador do departamento de ciências ecológicas e biológicas da Universidade de Tuscia, ao Olive Oil Times.

Além disso, os pesquisadores buscaram evidências nessa área, uma vez que ela é especialmente rica em biodiversidade e também palco de eventos históricos significativos.

Como ocorre em todas as grandes massas de água, tudo o que é interceptado pela gravidade se precipita e pode se tornar sedimento”, disse Palli. “Entre esses, há o pólen, que é um elemento microscópico produzido em enormes quantidades pelas plantas.” 

A coluna de sedimentos acumula material de forma lenta e progressiva, produzindo uma estratificação ininterrupta.

O que é ainda mais interessante é que ela mantém uma sequência cronológica, já que as camadas inferiores são as mais antigas. Ela se torna um arquivo natural”, disse Palli.

Esses sedimentos são ricos em materiais de diversas origens, como folhas, madeira, frutos, fungos ou algas unicelulares.

No Pantano Grande, havia oliveiras silvestres, misturadas com uma ampla variedade de vegetação mediterrânea.

Elas estão lá há muito tempo, até que a presença humana começou a remodelar a maior parte das áreas costeiras”, disse Palli.

Para di­sti­nguir cor­re­t­ame­n­te o pólen de oliveiras silvestres do pólen de oliveiras em um ambiente moldado pelo homem, os pesquisadores de­ve­lop­eram dois índices.

O primeiro concentrou-se nas oliveiras que crescem na vegetação litorânea típica do Mediterrâneo. O segundo considerou as oliveiras que compartilham áreas florestais com carvalhos, como as azinheiras.

Os dois índices permitiram aos pesquisadores determinar as tendências da vegetação em ambos os cenários.

Quando a predominância do pólen de oliveira surgiu em ambos os índices, isso foi uma evidência de uma presença significativamente mais ampla da planta quando comparada a todas as outras plantas que deveriam ter coexistido ali”, disse Palli.

Isso nos permitiu interpretar tais dados como um sinal de propagação artificial da planta, já que sua ecologia não teria permitido tal predominância”, acrescentou ele. “Isso nos indicou que as populações locais haviam tomado medidas.”

Essa análise levou os pesquisadores a identificar três períodos históricos em que a olivicultura ocorreu na região.

Enquanto o segundo (durante o Império Romano) e o terceiro (tempos modernos) são bem conhecidos e documentados, o primeiro período identificado foi uma surpresa.

Ele se estende da Idade do Bronze Média, no século XVIII a.C., até o século XII a.C.

A maioria dos historiadores há muito concorda que o conhecimento sobre o cultivo da oliveira teve origem na região do Mar Egeu, provavelmente trazido por colonos gregos para o sul da Itália por volta do século VIII a.C.

“Não sabemos muito sobre os sicanos”, disse Palli. Seus assentamentos estão localizados sob cidades modernas, como Messina. Algumas investigações mostraram que há muito a ser explorado lá embaixo, mas isso não pode acontecer por causa do que está acima.”

Há três mil anos, o cultivo da oliveira já era praticado no Mediterrâneo Oriental.

As novas evidências da pesquisa mostram que o conhecimento sobre a oliveira provavelmente foi levado às costas da Sicília por comerciantes vindos do Levante.

Existem vestígios arqueológicos de cerâmica e outros objetos originários da região do Egeu”, disse Palli.

Graças aos arqueólogos e outros pesquisadores que se juntaram à nossa pesquisa, conseguimos formular um cenário do que provavelmente aconteceu naquela época em Pantano Grande”, acrescentou.

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Nesse cenário, o comércio trouxe novos conhecimentos por meio do intercâmbio cultural.

“As oliveiras silvestres já estavam presentes naquela área, e a população local começou a valorizar esse recurso natural”, observou Palli.

No Levante, onde civilizações mais avançadas prosperavam, o azeite e a oliveira já eram altamente significativos.

Ao chegarem à Sicília vindos do Levante, comerciantes e marinheiros podem ter notado as muitas oliveiras. Seguiu-se a troca de conhecimentos.

Poderíamos dizer que o know-how agronômico se desenvolveu ali, mas devemos sempre ter em mente que estamos falando de tempos antigos, portanto não devemos comparar esse conhecimento à agronomia moderna de forma alguma”, disse Palli.

Vamos ter em mente que, naquela época, as ferramentas ainda não existiam, não eram comuns”, acrescentou. “Não havia arado, nenhum dos equipamentos que conhecemos hoje. A possibilidade de cultivar e revolver o solo de uma maneira específica simplesmente não existia.” 

Quando falamos dessa fase muito inicial da Idade do Bronze, sim, estamos falando de cultivo, mas não do cultivo como o conhecemos hoje”, continuou Palli.

Naquela época, os agricultores podiam cultivar as oliveiras em áreas onde elas já estavam presentes.

O que eles podem ter feito foi procurar áreas onde a árvore já estivesse presente ou então dar preferência às oliveiras em detrimento de outras plantas em áreas específicas”, disse Palli.

Uma parte crucial da pesquisa foi a análise paleoclimática, que permitiu aos cientistas estudar as variações climáticas ao longo do tempo.

“Os períodos de expansão ou regressão de uma vegetação específica podem depender de variações que ocorrem, por exemplo, nos níveis de umidade relativa ou na quantidade de chuva. Essas variações podem permitir que uma espécie concorra melhor com as outras”, disse Palli.

Ao comparar as evidências de variações paleoclimáticas analisadas em pesquisas anteriores, não foi encontrada nenhuma correlação específica com a predominância da oliveira.

Isso nos mostrou que o aumento dos volumes de pólen de oliveira não se devia a uma fase climática específica. Isso reforçou a hipótese da intervenção humana”, disse Palli.

A abordagem antiga do cultivo da oliveira na região de Pantano Grande durou de cinco a seis séculos.

“Ela entrou em colapso no século XII a.C.”, disse Palli. Isso não significa que o conhecimento também tenha entrado em colapso, já que as populações poderiam ter se deslocado para outras áreas.” 

O que os pesquisadores sabem é que, por volta do século XII, ocorreram vários eventos significativos.

O primeiro impacto veio da população ausônica que desceu para a Sicília a partir do que hoje é a Itália central. Vestígios arqueológicos mostram movimentos significativos de pessoas na época”, disse Palli.

Isso pode ter levado os sicanos a deixar a região. De acordo com os pesquisadores, atividades aleatórias semelhantes às de piratas começaram a ocorrer ao longo da costa siciliana naquela época, provavelmente realizadas por populações que, com o tempo, passaram a ser identificadas como sarracenos.

Tais atividades poderiam facilmente ter afetado o comércio marítimo e até mesmo afastado as populações das costas”, disse Palli.

Além disso, acredita-se que o Monte Etna, um dos vulcões mais ativos do mundo, localizado a 100 quilômetros de Messina, tenha tido uma enorme erupção naquela época. Vestígios dessa erupção foram encontrados posteriormente na Albânia, a cerca de 600 quilômetros de distância.

“Autores romanos antigos a descreveram como uma convulsão profunda sem paralelo, um evento geracional. É chamada de Evento Sicano, pois acredita-se que possa ter empurrado os sicanos da parte oriental da Sicília para a parte ocidental da ilha”, disse Palli.

Graças à análise de pólen, os pesquisadores verificaram que, após esse período, a predominância do pólen de oliveira cessou, com as camadas sedimentares mostrando um retorno a uma condição mais típica de espécies vegetais mistas.

Segundo Palli, foram necessários três anos de análise e mais dois anos para redigir a pesquisa a fim de reunir o trabalho de arqueólogos, climatologistas, historiadores, ecologistas e paleoecologistas.

Sem esse trabalho coletivo, não teríamos sido capazes de combinar história, pólen, arqueologia, análise de sedimentos e paleoclima e produzir tais evidências”, concluiu Palli.