A possibilidade de grandes mudanças na Argentina traz esperança para produtores e exportadores

A eleição de um governo conservador deu a alguns produtores a esperança de que a situação econômica da Argentina — assim como a deles próprios — comece a melhorar.

Desde que assumiu o cargo em dezembro, o presidente Javier Milei não perdeu tempo em cumprir suas promessas de promover uma mudança radical na Argentina.

Em poucas semanas, ele emitiu uma série de decretos e enviou um projeto de lei abrangente ao Congresso. A proposta original alterava mais de 300 leis, com o objetivo de desregulamentar a legislação trabalhista, privatizar empresas estatais e impor restrições aos protestos.

Nossos custos de produção ficarão muito mais caros, e a situação pode piorar no médio prazo. No entanto, a Argentina precisava de uma mudança. — Julián Clusellas, presidente da Valle de la Puerta

Enquanto os decretos entram em vigor – resultando em uma rápida desvalorização da moeda, já que o peso argentino caiu de seu valor artificialmente atrelado para um valor mais próximo do valor real de mercado —, o projeto de lei ómnibus não conseguiu ser aprovado numa votação inicial no Congresso, e as negociações estão em curso.

Os produ­tores e expor­ta­dores de azei­te de oliva entre­vistados pelo Olive Oil Times estão cautelosamente otimistas – alguns até mesmo otimistas – de que as reformas do presidente Milei ajudarão o se­tor. No entanto, são esperados des­afios si­g­ni­fi­cantes no curto prazo.

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O problema continua sendo a inflação, a carga tributária e as leis trabalhistas não salariais”, disse Mario Bustos Carro, diretor-geral da Câmara de Comércio Exterior de Cuyo. Mas há grande confiança no governo do presidente Milei. Suas leis e decretos precisam ser aprovados para que possamos dizer que podemos começar a avançar.”

Ele citou as reformas propostas pelo governo Milei para as leis trabalhistas não salariais e para reduzir os gastos públicos como políticas que ajudariam o setor de azeite de oliva. Embora as reformas tributárias tenham sido retiradas da legislação original, Bustos Carro acrescentou que elas teriam ajudado a tornar as exportações de azeite de oliva mais competitivas.

Guillermo Kemp, diretor comercial da Solfrut e membro do conselho da Federação Argentina de Azeite (AOF), disse ao Olive Oil Times que produtores e exportadores precisam esperar para ver quais alterações serão feitas no projeto de lei abrangente no Congresso.

Embora o governo tenha proposto um imposto de 15% sobre algumas exportações agrícolas para ajudar a fechar um déficit fiscal significativo, o azeite de oliva não foi incluído.

Kemp disse que a omissão continuaria a incentivar os produtores a exportar, especialmente porque a diferença entre a taxa de câmbio oficial do peso-dólar americanoe a taxa de câmbio não oficial, conhecida como “dólar azul”, tenha caído de mais de 120% para cerca de 20%.

A dis­cre­p­ân­cia entre as duas era um des­afio si­g­ni­fi­c­an­te para os exportadores, que tinham que repa­tri­ar as vendas no ex­ter­io­r realizadas em dólares dos EUA e euros à taxa de câmbio ofi­cial, muito mais baixa, enquanto ad­quiri­am muitos ins­pu­tos de pro­dução – muitas vezes em dólares – à taxa de câmbio mais alta do dólar azul.

Isso melhora significativamente a situação dos exportadores”, disse Julián Clusellas, presidente da Valle de la Puerta, um importante exportador e membro do conselho da AOF, ao Olive Oil Times.

Ele concordou que a ausência de novos impostos ajudaria o setor. No entanto, outras medidas de corte de custos aumentarão os custos dos insumos para produtores e moinhos.

Clusellas alertou que os custos de produção dobrariam após o governo retirar os subsídios à eletricidade, resultando em um aumento de preços de até 150%, e que isso seria sentido de forma mais aguda pelos agricultores que dependem da irrigação.

“Os custos da eletricidade ficarão muito mais caros na Argentina assim que o governo retirar todos os subsídios”, disse ele. Como resultado, nossos custos de produção ficarão muito mais caros, e a situação pode piorar no médio prazo. No entanto, a Argentina precisava de uma mudança, e espero que melhorem o país.”

Embora ainda seja muito cedo para dizer como os decretos e a legislação proposta funcionarão para conter a inflação — que atingiu um novo recorde de 254% em relação ao ano anterior em janeiro — e colocar a economia argentina no caminho da recuperação, Clusellas está otimista.

Ele concordou com Bustos Carro que a alteração das leis trabalhistas tornaria mais fácil para os gerentes contratar e demitir funcionários. No sistema atual, as empresas geralmente precisam pagar generosas indenizações, o que limita sua capacidade de contratar um substituto.

Enquanto isso, a privatização da empresa ferroviária estatal poderia abrir as portas para investimentos tão necessários para melhorar a logística e a eficiência do transporte no país – algo que os maiores produtores de azeite de oliva defendem há muito tempo.

Há muito trabalho a ser feito na infraestrutura ferroviária para reduzir os custos de transporte até o porto”, disse Clusellas.

Com os planos de construir um corredor bioceânico ligando a Argentina aos principais portos chilenos paralisados por tempo indeterminado, praticamente todas as exportações de azeite da Argentina – estimadas pelo Conselho Oleícola Internacional em 26.500 toneladas na safra de 2022/23 – percorrem cerca de 1.200 quilômetros do noroeste e oeste do país por rodovia ou ferrovia até os portos de Buenos Aires.

Os defensores do corredor acreditavam que ele facilitaria as exportações de azeite de oliva argentino para os lucrativos mercados do Leste Asiático, como China, Japão e Coreia do Sul. A maioria das exportações tem como destino o Brasil, a Europa e os Estados Unidos.

Embora haja otimismo quanto às perspectivas do setor, ninguém nega que ainda há muito trabalho a ser feito para melhorar a situação econômica dos olivicultores e produtores.

“É preciso muito mais, como melhorias nas infraestruturas – rodovias, portos, meios de transporte competitivos –, estímulo às economias regionais e promoção do [azeite extravirgem argentino]”, disse Kemp.

“Não será fácil”, concluiu Bustos Carro.