Encontrando o equilíbrio entre as oliveiras

A vida é mais tranquila na fazenda para o empresário da moda Joaquim Moreira, que produz a premiada marca de azeite Acushla. “A moda é um setor envolvente. Mas agora, sinto mais paixão pelo azeite.”

“Estar aqui no olival me dá anos de vida. Estar longe, no mundo da moda, me tira esses anos”, disse Joaquim Moreira.

Ele é o fundador e proprietário da Acushla, uma das principais produtoras de azeite orgânico na região de Trás-os-Montes, no nordeste de Portugal.

A agricultura faz bem ao corpo e à alma. — Joaquim Moreira

Por 30 anos, Moreira trabalhou no mundo da moda. Em 2004, ele sentiu o “chamado da natureza” e decidiu mergulhar no setor do azeite.

“Talvez tenha tido a ver com o fato de eu ter crescido vendo meu pai trabalhar a terra em nossa vila perto do Porto”, disse ele.

“A moda é um setor envolvente. Mas agora, sinto mais paixão pelo azeite”, acrescentou.

Acushla — uma palavra de origem celta que significa “batida do meu coração” — conquistou os prêmios de ouro e prata na edição deste ano do Concurso Mundial de Azeite NYIOOC e mais dois prêmios de ouro em 2018 e 2017.

“A agricultura faz bem ao corpo e à alma”, disse Moreira a um repórter do Olive Oil Times enquanto dirigia seu veículo todo-o-terreno subindo e descendo as encostas íngremes de sua propriedade de 300 hectares em Vale Frechoso — uma pequena vila no município de Vila Flor.

Este é o coração da “Terra Quente”, a região de Trás-os-Montes onde os olivais dominam a paisagem. Em contraste, na “Terra Fria Transmontana”, as castanhas são a principal cultura.

A fazenda de Acushla, como a maioria dos olivais da região, é um lugar acidentado. Cultivar oliveiras e produzir azeite orgânico aqui, sugere Moreira, não é fácil.

No entanto, ele ressalta que esse tipo de agricultura esteve em sua mente desde o primeiro momento.

“Acho que hoje em dia não devemos pensar apenas no lucro, mas, a longo prazo, em nossos filhos, e precisamos ser sustentáveis. É nossa obrigação, como agricultores, fazer algo pelo mundo”, disse Moreira.

Atualmente, a propriedade conta com cerca de 200 hectares de olivais, dos quais 15 são compostos por oliveiras centenárias, enquanto o restante consiste em novas plantações. Mas a paisagem daqui deve ter sido bem diferente há 15 anos.

Em 2004, quando Moreira comprou essas terras, a maior parte da área estava coberta por eucaliptos, uma árvore exótica amplamente disseminada em Portugal, onde foi introduzida como fonte de celulose para a indústria papeleira.

“A primeira coisa que fizemos foi derrubar todos os eucaliptos”, explicou Moreira. “Sou um combatente contra os eucaliptos; eles acabaram com todas as plantas autóctones.”

Além disso, o eucalipto, altamente inflamável, foi considerado um dos principais fatores que contribuíram para a propagação dos incêndios florestais mortais que deixaram 66 vítimas e devastaram quase 45.000 hectares no centro de Portugal durante o verão de 2017.

A maior parte dos eucaliptos em Acushla foi substituída por cultivares locais de oliveira, como a Verdeal Transmontana, a Madural e a Cobrançosa, que também são cultivadas em outras regiões de Portugal.

“As variedades desta região têm qualidades únicas e estão muito bem adaptadas a este solo”, disse Moreira.

“Cada uma delas tem um sabor e características especiais. A Verdeal Transmontana é muito amarga e é boa para prolongar a vida útil do azeite sem perder qualidade. A Madural é provavelmente a variedade mais equilibrada que temos aqui, enquanto a Cobrançosa, além de ser bem equilibrada, é a mais produtiva. A Cordovil é muito semelhante à Madural”, explicou ele.

No ano passado, Portugal produziu 132 mil toneladas de azeite, segundo dados do Conselho Internacional do Azeite.

O país ibérico é o sétimo maior produtor do mundo, atrás da Espanha, Itália, Grécia, Tunísia, Turquia e Marrocos.

Trás-os-Montes, que significa literalmente “além das montanhas”, é a segunda região produtora de Portugal, atrás apenas do Alentejo.

Apesar disso, a maioria dos olivais nessa região montanhosa é plantada da maneira tradicional — mantendo uma distância maior entre as árvores do que nas plantações modernas —, já que olivais superintensivos são quase impossíveis de cultivar por aqui.

Esta tem sido uma área tradicionalmente isolada, fortemente afetada pela migração e pelo despovoamento. “Esta região perdeu quase cinquenta por cento de sua população nas últimas décadas”, destacou Moreira.

“Acho que iniciativas como a nossa ajudam a reter a população aqui. Temos apenas 10 funcionários — não somos um grande empregador —, mas tentamos fazer nossa parte, mesmo que seja pequena”, acrescentou.

Quando questionado sobre como vê o futuro de seu projeto, Moreira se mostra otimista.

“No futuro, gostaria de deixar o ramo da moda e me dedicar exclusivamente a isso. Meu sonho é desenvolver ainda mais a Acushla. Não pretendo ter mais área ou mais oliveiras. Pretendo aprimorar ainda mais a qualidade do azeite”, disse Moreira.