A Unilever aposta na tecnologia blockchain para o óleo de palma certificado como livre de desmatamento

O uso da tecnologia blockchain por parte da gigante do setor alimentício pode beneficiar os pequenos agricultores que cultivam frutos de palma de forma sustentável e impedir o desmatamento de mais florestas tropicais do Sudeste Asiático.

A Unilever, uma das maiores empresas de alimentos do mundo, anunciou um projeto-piloto baseado na tecnologia blockchain da SAP para certificar a origem do seu óleo de palma.

Segundo a empresa, o projeto pode abrir as portas para uma nova era de transparência, rastreabilidade e sustentabilidade na produção de óleo de palma, com o envolvimento de pequenos produtores nos países de origem.

Nossa solução permite que as empresas identifiquem qual porcentagem dos produtos de óleo de palma que adquiriram provém de uma origem sustentável e rastreiem essa origem até o produto final do consumidor.– Nitin Jain, gerente geral, SAP GreenToken

A origem incerta do óleo de palma tem sido associada a atividades de desmatamento em grande escala.

“Matérias-primas como o óleo de palma são frequentemente misturadas com matérias-primas fisicamente idênticas provenientes de fontes sustentáveis verificadas e não verificadas após a ‘primeira milha’ da cadeia de suprimentos, fazendo com que as informações de origem fiquem ocultas ou se percam”, afirmou a Unilever em um comunicado à imprensa.

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A necessidade de certificar e verificar a origem do óleo de palma se deve ao crescente interesse demonstrado por consumidores em todo o mundo em relação ao impacto ambiental dos alimentos.

Isso também se deve a regulamentações mais rigorosas, cada vez mais aplicadas em nível internacional. Por exemplo, a Comissão Europeia confirmou recentemente que está trabalhando para interromper todas as importações de produtos ligados ao desmatamento.

O projeto piloto da Unilever na Indonésia utilizou a tecnologia de blockchain GreenToken para adquirir mais de 188.000 toneladas de frutos de palma.

De acordo com a empresa, as fontes de frutos de palma da Unilever criaram tokens que “refletem o fluxo de matéria-prima do óleo de palma ao longo da cadeia de suprimentos e capturam os atributos únicos ligados à origem do óleo”.

Como resultado desse processo, a Unilever pôde rastrear, verificar e relatar a origem do produto e seu processamento ao longo da cadeia de suprimentos.

Andrew Wilcox, gerente sênior da Unilever, disse ao FoodNavigator que o novo sistema “aproveita processos de negócios existentes, como a criação de ordens de compra, recibos de mercadorias e registros de balanças, para originar e transferir esses tokens de commodities indivisíveis e irreproduzíveis e manter a contabilidade transparente em cada etapa da cadeia de suprimentos”.

Essas informações permitem que a empresa cumpra as futuras regulamentações europeias, que exigirão que os produtores certifiquem voluntariamente e ofereçam acesso completo a informações como o tipo de commodity, volumes de produção, fornecedores envolvidos e o país de produção.

De acordo com a comissão, os exportadores terão que especificar as coordenadas geográficas exatas da produção e certificar que sua cadeia de produtos está em conformidade com as leis locais.

Segundo Nitin Jain, gerente geral da SAP GreenToken, a plataforma permite que as empresas “apliquem a mesma rastreabilidade e transparência da cadeia de suprimentos às matérias-primas a granel que se obtém ao escanear um código de barras ou QR em qualquer produto de consumo.”

“Nossa solução permite que as empresas saibam qual porcentagem dos produtos de óleo de palma que adquiriram provém de uma origem sustentável e rastreiem essa informação até o produto final de consumo”, acrescentou ele.

A Unilever informou que planeja alcançar uma cadeia de suprimentos livre de desmatamento até 2023.

Os parceiros da empresa, como a Golden Agri-Resources, afirmaram que a nova plataforma aumenta a transparência de suas operações e facilita o fluxo de informações entre os diferentes atores da cadeia de suprimentos.

De acordo com Wilcox, a tecnologia blockchain poderia ter um impacto significativo nas florestas tropicais, onde os pequenos produtores “frequentemente estão localizados próximos à biodiversidade mais excepcional do planeta, às florestas e turfeiras mais ricas em carbono e, muitas vezes, aos ecossistemas mais ameaçados, onde suas decisões de produção têm os impactos mais desproporcionais.”

A Unilever afirmou que a nova plataforma pode se revelar “transformadora” para a inclusão dos pequenos produtores, uma vez que eles poderão obter certificação tanto de suas práticas sustentáveis quanto de seu progresso ao longo do tempo.

“Essa segregação virtual possibilitada pelo blockchain, combinada com os dados de rastreabilidade da primeira milha, pode capturar informações sobre as práticas agrícolas e o ambiente dos pequenos produtores para mostrar o esforço e o progresso alcançados por eles em direção à sustentabilidade”, disse Wilcox ao FoodNavigator.

Embora muitos países em quatro continentes produzam óleo de palma, o maior produtor continua sendo a Indonésia, que, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), é responsável por 59% da produção global. Cerca de 40% da produção indonésia vem de pequenos agricultores.

O USDA estima que, em 2022/23, a produção crescerá para 46 milhões de toneladas na Indonésia, 500 mil toneladas a mais do que no ano anterior, devido a “condições climáticas favoráveis e preços mais altos para os produtores”.

De acordo com o USDA, as exportações no período devem subir para 30 milhões de toneladas devido à crescente demanda da China e da Índia.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estimou que, entre 1990 e 2020, 420 milhões de hectares de floresta foram perdidos globalmente devido ao desmatamento.

Mesmo contando com as florestas recém-plantadas ou regeneradas, que só podem compensar parcialmente a perda, 178 milhões de hectares foram perdidos nesse período, uma área aproximadamente do tamanho de todo o estado norte-americano de Dakota do Norte.