Colheita antecipada aponta para um ano recorde em Minas Gerais

Os produtores de azeitona de Minas Gerais afirmam que uma colheita antecipada, uma floração abundante e condições climáticas favoráveis no inverno estão criando as condições para um ano recorde, embora as fortes chuvas de verão estejam influenciando a qualidade e as decisões relativas à moagem.

A colheita começou mais cedo do que o habitual, e os produtores ainda esperam um ano recorde, já que relatam altos rendimentos da campanha em andamento em Minas Gerais, estado do sudeste do Brasil.

“2026 promete ser um marco para a produção de azeite no Sudeste do Brasil. As temperaturas de inverno e as chuvas bem distribuídas promoveram uma floração intensa, o que se traduziu em frutos abundantes”, disse Moacir Batista do Nascimento Filho, presidente da associação local de olivicultores Assoolive, ao Olive Oil Times.

“A produção aumentou substancialmente ao longo dos anos”, disse Amanda Souza, pesquisadora de olivicultura da EPAMIG, empresa de pesquisa agrícola do estado de Minas Gerais, ao Olive Oil Times.

Souza disse que os ganhos desta safra se seguiram a um inverno marcado por um La Niña moderado, trazendo temperaturas mais baixas e estáveis, noites frias e mais de 700 horas abaixo de 7 °C. Ela disse que as condições favoreceram a indução floral, contribuindo para uma maior frutificação em muitos pomares.

Trabalho em andamento dos pesquisadores do EPAMIG (Foto: Erasmo Reis | ASCOM EPAMIG)

Trabalho em andamento dos pesquisadores do EPAMIG (Foto: Erasmo Reis | ASCOM EPAMIG)

Souza acrescentou que os pesquisadores contam com o monitoramento climático ao longo do ano, apoiado por uma rede de mais de 450 estações meteorológicas instaladas em olivais para acompanhar os microclimas regionais.

O clima desfavorável na última safra manteve a produção abaixo de 60.000 litros, muito abaixo do recorde anterior de 150.000 litros registrado em 2024. “Minha expectativa é atingir a marca de 200.000 litros este ano”, disse do Nascimento Filho.

A produção de azeite no sopé da Serra da Mantiquera representa 65% da produção total de azeite de Minas Gerais. Os pomares são normalmente plantados em altitudes entre 900 e 1.900 metros, e cerca de 120 a 150 propriedades operam na região.

Ao contrário do Rio Grande do Sul, onde o cultivo da oliveira se concentra em propriedades extensas e planas, a produção em Minas Gerais está espalhada por pomares menores, frequentemente localizados em terrenos íngremes. As oportunidades limitadas de mecanização aumentam os custos operacionais, o que se reflete em preços de varejo mais altos para muitos dos azeites do estado.

Amanda Souza

Amanda Souza

Em 2026, as opera­ções de colheita come­çaram em janeiro. Souza disse que a pre­ci­pitação foi um fa­tor-chave por trás do iní­cio mais pre­co­p­ar­e­do, já que o verão no Brasil é ti­pi­ca­mente mais úmido do que os perí­odos de amadure­ci­mento de pico na colheita do Hemisfério Norte.

A média de precipitação em 2026 excedeu significativamente a média de 2025, disse Souza. “A alta precipitação aumenta a absorção de água pela fruta, levando a um aumento no peso fresco e, consequentemente, a uma redução no teor de óleo com base no peso úmido”, acrescentou ela.

O excesso de chuva também pode complicar a moagem, já que frutos com elevado teor de umidade podem tornar a centrifugação e a separação eficiente mais difíceis. Souza disse que esses lotes são conhecidos no setor como “pastas difíceis”.

A alta umidade também pode aumentar a pressão de doenças e a queda de frutos em cultivares amplamente plantadas, como a Grappolo 541, uma variedade nacional desenvolvida pela EPAMIG que se tornou popular entre os produtores por seu desempenho agronômico na região.

Os produtores afirmam que o início antecipado não é apenas uma reação às condições climáticas. Tornou-se também uma estratégia deliberada para proteger a qualidade do azeite.

“A colheita antecipada modula a qualidade do azeite de oliva para um perfil sensorial mais intenso, devido às maiores concentrações de compostos fenólicos e voláteis, resultando em aromas e sabores mais pronunciados”, disse Souza.

Do Nascimento Filho disse que a crescente maturidade técnica do setor está tornando as decisões de colheita mais intencionais. “Os olivicultores estão se tornando mais profissionais por meio de cursos, seminários e palestras, bem como buscando conhecimento junto aos olivicultores mais experientes do setor”, disse ele.

Essa profi­sional­iza­ção vai além do pomar. Do Nascimento Filho disse que as opera­ções de pro­cess­amento estão con­so­li­da­ndo e adapta­ndo suas instala­ções para cum­prir a le­gi­s­la­ção atual, incluindo o registro junto ao Ministério da Agricultura, para fortalecer os controles de qualidade em toda a cadeia de valor.

Temperaturas antes da moagem (Foto: Erasmo Reis | ASCOM EPAMIG)

Temperaturas antes da moagem (Foto: Erasmo Reis | ASCOM EPAMIG)

Ele acrescentou que associações como a Assoolive e a Ibraoliva estão ajudando a conectar produtores, moinhos e outras partes interessadas, apoiando o desenvolvimento de um setor de olivicultura mais organizado.

No Campo Experimental da EPAMIG em Maria da Fé, pesquisadores monitoram indicadores ao longo do ciclo reprodutivo, incluindo a frutificação, o crescimento, o teor de óleo e a incidência de doenças. Souza disse que análises químicas e de qualidade são realizadas no Laboratório de Análise de Azeite do local, coordenado pelo pesquisador Luiz Fernando Oliveira.

Souza disse que o esforço de pesquisa fortaleceu a identificação de patógenos e os protocolos fitossanitários para gerenciar ameaças como a Xylella fastidiosa, a mancha foliar da oliveira e a antracnose, protegendo tanto a produtividade quanto a qualidade.

Nos últimos anos, um número crescente de produtores brasileiros tem se destacado no Concurso Mundial de Azeite do NYIOOC, às vezes mesmo após condições climáticas muito adversas.

Desde que a EPAMIG extraiu o primeiro azeite extravirgem de Minas Gerais em Maria da Fé, em 2008, o setor se expandiu para áreas que incluem Itabirito, Ouro Preto, Diamantina, o Vale do Jequitinhonha e a porção mineira da Serra do Espinhaço, onde as altitudes médias giram em torno de 1.200 metros.

A altitude continua sendo um fator determinante, disse Souza, porque aumenta as horas de frio no inverno e proporciona amplitude térmica moderada no período anterior à floração. “Essas condi­ções favorecem a in­dução flo­ral e influ­en­çam dire­ta­mente o poten­cial pro­du­ti­vo da colheita se­guinte”, disse ela.

Souza acrescentou que observações de campo e dados climáticos sugerem que altitudes mais elevadas podem retardar o desenvolvimento e o amadurecimento dos frutos, ajudando os óleos a reter níveis mais elevados de compostos fenólicos e voláteis e contribuindo para uma maior complexidade sensorial.

Fazenda experimental do EPAMIG (Foto: Erasmo Reis | ASCOM EPAMIG)

Fazenda experimental do EPAMIG (Foto: Erasmo Reis | ASCOM EPAMIG)

Tanto Souza quanto do Nascimento Filho afirmaram que a expansão futura dependerá fortemente da pesquisa científica, incluindo a seleção de cultivares e programas estruturados de melhoramento genético. Eles observaram que o Brasil possui atualmente onze variedades nacionais protegidas e mais uma em processo de registro.

Custos e logística continuam sendo os principais obstáculos em Minas Gerais, em grande parte devido ao relevo montanhoso. “A maioria das atividades de manejo é realizada manualmente devido à topografia íngreme e à escassez de mão de obra rural. Precisamos desenvolver alternativas, incluindo equipamentos e maquinário, para facilitar essas atividades”, disse do Nascimento Filho.

Souza acrescentou que o aumento das temperaturas médias é outro desafio. “Esse cenário exige tanto a adaptação dos sistemas de produção quanto a busca por cultivares mais tolerantes a condições climáticas mais quentes”, disse ela, apontando para as crescentes pressões das mudanças climáticas.

Manter padrões elevados também exige um controle rigoroso em todas as etapas da produção, disse Souza, especialmente sob as condições climáticas e os riscos de doenças de Minas Gerais.

Olhando para o futuro, ela disse que a expansão pode se concentrar cada vez mais em regiões mais quentes, onde a topografia é mais adequada à mecanização, permitindo que os produtores ampliem a escala de produção sem comprometer a qualidade.

“A pesquisa científica será a força motriz por trás dessa expansão”, disse Souza, citando trabalhos sobre zoneamento edafoclimático, a seleção de cultivares adequadas a diferentes regiões e programas de melhoramento genético para aumentar a produtividade.

“Hoje, vemos um número crescente de instituições adotando o cultivo da oliveira em suas diferentes áreas de desenvolvimento, incluindo gestão, genética, gastronomia e turismo. Isso certamente fortalecerá nosso setor, garantindo um crescimento ordenado da atividade e da qualidade do azeite de oliva em Minas Gerais”, concluiu do Nascimento Filho.