Rendimentos recordes para Portugal na safra 2021/22
Condições climáticas ideais e olivais mais modernos permitiram que Portugal colhesse até 230 mil toneladas de azeite. No entanto, especialistas alertam para os desafios que se avizinham.
A produção de azeite em Portugal está a caminho de atingir um recorde de 225 milhões de litros (230.000 toneladas) na campanha agrícola de 2021/22, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE).
O INE atribuiu a safra excepcional às condições agrometeorológicas ideais e ao papel crescente dos olivais de alta densidade e superalta densidade.
A produção média de azeite em Portugal poderá atingir, a curto-médio prazo, 200.000 toneladas por ano.
No entanto, os números divulgados pela Olivum mostram uma produção ligeiramente inferior. A associação local de produtores e moinhos de azeite estima que a produção para a safra 2021/22 atinja entre 180.000 e 200.000 toneladas.
De qualquer forma, a safra deste ano baterá recordes. Na safra anterior, a produção atingiu 100.000 toneladas, enquanto 150.000 toneladas foram registradas em 2019/20, o recorde anterior.
Veja também: Notícias da Colheita de 2021“Na campanha que acaba de terminar, as condições climáticas e a quase ausência de pragas contribuíram, sem dúvida, para esses resultados muito positivos em termos de produção, que são efetivamente os melhores números já registrados pelo setor”, disse Gonçalo Almeida Simões, diretor executivo da Olivum, ao Olive Oil Times.
A Casa do Azeite, associação local para a promoção do azeite e da cultura do azeite, confirmou que os rendimentos atuais representam o maior total de produção desde que o país começou a reportar sistematicamente os dados da colheita em 1915.
De acordo com Mariana Matos, secretária-geral da Casa do Azeite, isso pode ser apenas o começo.
“Tendo em conta o forte investimento em novas plantações e em plantações irrigadas que Portugal tem testemunhado nos últimos anos, especialmente na região do Alentejo, estima-se que a produção média de azeite em Portugal possa atingir, a curto-médio prazo, 200.000 toneladas por ano”, disse Matos ao Olive Oil Times.
Ela acrescentou que a produção poderia continuar a crescer “à medida que os investimentos em novas plantações continuam, embora com uma taxa de crescimento mais lenta do que a observada até agora”.

A olivicultura tem sido uma parte relevante da tradição e da cultura agrícola portuguesa há séculos. Acredita-se que as primeiras oliveiras tenham surgido no país há mais de 3.000 anos.
De acordo com dados da Juan Vilar Strategic Consulting, Portugal conta atualmente com 361.483 hectares de olivais, o que representa 3% da área global de cultivo de oliveiras.
A região centro-sul do Alentejo abriga o maior número de plantações de alta densidade. Os olivais de baixa densidade são mais comuns na região sul do Algarve ou na região centro-norte de Entre Douro e Minho.
Os dados da Juan Vilar Strategic Consulting mostram que 64% do território português é coberto por olivais modernos, dos quais pouco mais de 32% são de alta densidade e pouco menos de 32% são de densidade superalta. Além disso, mais de 38% dos olivais são irrigados.
Desde que o primeiro olival moderno foi plantado na região de Santarém nos últimos 20 anos, grandes investimentos e incentivos públicos mudaram drasticamente o setor olivícola do país, que dependia de olivais tradicionais.
“Portugal costumava ser um país com um grande déficit na produção de azeite, tendo que importar uma enorme quantidade de azeite para satisfazer suas necessidades”, disse Matos. “Toda essa situação mudou em poucos anos, e Portugal é agora um país autossuficiente… e um exportador líquido.”
“A balança comercial do setor passou de um déficit extremo para um saldo positivo de cerca de 250 milhões de euros, enquanto a qualidade do azeite produzido em Portugal aumentou significativamente”, acrescentou ela.
Portugal tornou-se autossuficiente na produção de azeite em 2014 e produz 150% de suas necessidades, o que, segundo a Olivum, torna Portugal o quarto maior exportador mundial.

“O aumento em termos de área, mas também de produtividade, está ligado ao olival moderno e, acima de tudo, ao grande projeto de irrigação do Alqueva”, afirmou Almeida Simões.
“Assim, 60% do perímetro de irrigação do Alqueva é composto por olivais modernos e os aumentos nas quantidades produzidas estão diretamente relacionados ao sucesso e à produtividade desse tipo de olival”, acrescentou. “Em 2000, a média nacional de produção de azeitonas era de 0,5 tonelada por hectare. Hoje, algumas propriedades na região do Alqueva estão produzindo 20 toneladas por hectare.”
Embora algumas empresas portuguesas estejam entre os maiores produtores de azeite do mundo, um número crescente de pequenos produtores também está demonstrando a qualidade de seus azeites extravirgens.
No Concurso Mundial de Azeite NYIOOC 2021, 38 azeites portugueses foram premiados por sua excelente qualidade. Entre os produtores vencedores, muitos cultivam olivais tradicionais.
“Eles desempenham um papel muito importante no cenário nacional, pois produzem azeite engarrafado de alta qualidade”, disse Almeida Simões. “As azeitonas são uma cultura de sequeiro encontrada principalmente nas regiões de Trás-os-Montes, Beira Alta e Beira Baixa.”
Ele acrescentou que os olivais tradicionais e modernos têm um impacto econômico significativo em Portugal e um impacto social nas comunidades rurais do interior.
“O setor agroalimentar, nomeadamente o setor do azeite, permitiu impulsionar a economia local e criar empregos em regiões que não são atraentes para outros setores da economia, uma vez que se encontram distantes dos grandes centros urbanos”, afirmou Almeida Simões.
Especialistas locais também valorizam os olivais tradicionais pelo seu papel na manutenção da biodiversidade e na proteção da diversidade genética.
Segundo Matos, seu perfil genético e o papel que desempenham na manutenção da paisagem e do ecossistema são tais que “esse tipo de olival, que é menos rentável por natureza, deve receber apoio específico para que sua sobrevivência possa ser garantida”.
Embora a produção em Portugal continue a aumentar drasticamente, o consumo médio anual de azeite é estimado em 7,8 litros por pessoa, colocando o país atrás da Itália, Espanha e Grécia.
No entanto, especialistas portugueses observaram que o consumo de azeite nos principais países produtores caiu nos últimos anos.

“Isso deve servir de alerta para todo o setor”, disse Matos. “Existem muitos mitos e muita desinformação, e o setor é responsável por promover os azeites e educar os consumidores.”
“Precisamos de mais estudos sobre a razão dessa queda no consumo nos países produtores para que possamos elaborar campanhas de marketing bem direcionadas”, acrescentou ela.
“O Conselho Oleícola Internacional está realizando estudos aprofundados sobre o comportamento do consumidor em vários países, e acredito que os resultados desses estudos serão uma ferramenta essencial para compreender o fenômeno, promover o consumo de azeite de oliva e captar a atenção dos consumidores mais jovens”, continuou Matos.
Segundo Almeida Simões, os países produtores devem continuar a promover suas culturas de azeite, mas não devem se limitar a isso.
“É preciso fazer um investimento significativo nos mercados de consumo de países não produtores que já consomem azeite”, disse ele, “e, acima de tudo, em países não produtores que não têm tradição de consumir azeite, como é o caso dos países asiáticos, onde a soja domina a culinária.”
Entre os desafios mais relevantes que o setor enfrenta, os especialistas destacam o papel das mudanças climáticas e, mais especificamente, a seca severa e prolongada que afeta o país.
“Já se observam os efeitos negativos da seca meteorológica grave e extrema, que, no final de janeiro, afetava 45% do território continental”, escreveu o INE. “Este cenário de seca, aliado ao aumento dos preços dos meios de produção, tem gerado incerteza e uma preocupação crescente no setor.”
“Este ano, a seca está atingindo proporções que já são muito preocupantes e que podem atingir dimensões catastróficas nas próximas semanas”, acrescentou Almeida Simões.
“As culturas de sequeiro estão sofrendo, e as culturas irrigadas estão recebendo o mínimo para que a planta não sofra com o estresse hídrico, o que poderia afetar o ciclo vegetativo não apenas este ano, mas nos anos que virão”, concluiu.