Em Minas Gerais, a produção e o turismo andam de mãos dadas

Entre as plantações de frutas e café de Minas Gerais, as oliveiras criaram raízes. Apesar do clima pouco convencional da região, os produtores locais estão criando um novo tipo de cultura do azeite no Brasil.

Ao lado das plantações de café e em meio à vegetação exuberante, as oliveiras marcaram presença em Minas Gerais, uma região a nordeste de São Paulo, no Brasil.

Lutando contra as adversidades climáticas, mas com fé e perseverança, os produtores locais apostaram tudo na produção de azeite de alta qualidade e no oleoturismo como forma de divulgar seus produtos ao público.

(O clima) é uma realidade que desanima muitos, mas, para outros, serve de motivação para se reinventarem. — Ana Beloto

Tons de verde envolvem os visitantes que chegam à Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, a três horas a leste de São Paulo, onde palmeiras se misturam com plantações de banana e café, cobrindo as encostas. Há alguns anos, as oliveiras buscaram e encontraram seu lugar nesse ecossistema fértil e colorido.

Foi uma paisagem curiosa encontrar essa espécie tão associada ao clima mediterrâneo durante uma visita no mês passado, quando a colheita começou no Brasil — um dos mais novos participantes no mundo da produção de azeite de oliva.

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Não encontramos aqui nada que se assemelhasse aos olivais do Mediterrâneo. Minas Gerais é tudo menos tradicional, e seu cultivo de oliveiras é tão surpreendente quanto suas terras e seu povo.

Como explicam os “Mineiros”, como são conhecidos os habitantes da região, eles podem passar pelas quatro estações do ano em duas horas, mas algumas coisas são constantes. Sempre haverá umidade, água em excesso, e a certeza de que uma nuvem descarregará toda a sua fúria no meio da colheita é mais uma certeza do que uma possibilidade. Mas então o sol nasce, um arco-íris aparece e, bem, quem consegue resistir a isso?

Serra da Mantiqueira, Brasil

Serra da Mantiqueira, Brasil

Então, esquecemos tudo o que sabemos sobre a oliveira — estresse hídrico, oscilação térmica, esquemas de plantio — e nos permitimos ser surpreendidos, porque a verdade é que, há cerca de 10 anos, os produtores dessa área — um dos terroirs mais famosos para o cultivo de café — começaram a plantar oliveiras.

Já se passaram alguns anos desde então, e os azeites produzidos na região têm ganhado espaço em competições internacionais.

Um produtor, a Fazenda Irarema, que conquistou o Prêmio Ouro no NYIOOC 2019 por seu blend, fica a 12 quilômetros (7,5 milhas) de Poços de Caldas, uma região conhecida por seu solo vulcânico e fontes termais que atraem um grande número de turistas nos fins de semana.

Foi aqui que a família Carvalho Dias se estabeleceu há quarenta anos. Mônica sonhava em morar na região, perto de sua prima. No início, seu marido, Maurício, insistia que não havia nada para comprar ali, mas acabou cedendo, e o casal chegou ao que se tornaria seu novo lar.

A fazenda, fundada em 1870, estava completamente abandonada há cinco anos quando eles chegaram. Hoje, ela é composta por campos organizados e bem cuidados, onde são cultivadas e produzidas frutas, hortaliças, nozes, um dos cafés mais premiados do mundo — e azeite de oliva.

A combinação da paisagem com o processo de produção levou a família Carvalho Dias a abrir as portas de sua casa, e agora eles recebem até 600 visitantes na Fazenda Irarema todo fim de semana.

A experiência é completa, incluindo a oportunidade de conhecer o processo agrícola e visitar a loja da fazenda, onde são produzidos e vendidos sabonetes e outros cosméticos feitos com os óleos e seus subprodutos.

Ao lado da fazenda fica a Bemdita, um açougue premium, cujos produtos são produzidos na região sob cuidados rigorosos e administrados por Carol, cujo marido, Moacir — filho de Mônica e Maurício —, dirige o lagar, gerenciando cada máquina e controlando cada extração.

Moacir Carvalho Dias

Moacir Carvalho Dias

Sua irmã trabalha no restaurante adjacente, onde os turistas apreciam produtos locais harmonizados com os azeites. Até mesmo os netos, a terceira geração, participam vendendo frutas que eles mesmos colhem.

Maurício conhece cada centímetro do campo e avalia novos métodos e tecnologias para melhorar a produção e a qualidade da fruta; um verdadeiro desafio devido ao clima e à abundância de pragas.

Vizinha a Irarema está a Fazenda Rainha, onde é produzido o famoso café Orfeu e, há alguns anos, também o azeite de oliva.

O projeto, de propriedade da família Marinho, que controla a gigante da mídia O’Globo, está em fase de lançamento de sua marca. Aqui, a colheita é feita da maneira tradicional em terras que, além de incrivelmente verdes, também são montanhosas.

O custo de produção em Minas Gerais é alto, entre US$ 5 e US$ 6 por litro, e, portanto, os preços dos azeites também são elevados.

A basket filled with green and purple olives, mixed with olive leaves.

O Brasil produziu 230 mil litros em 2019, e 40% do total veio dessa região (os outros 60% foram produzidos no sul do país).

Em 2020, a produção na região será 30% menor do que em 2019. Fungos e fortes tempestades de granizo na época da floração afetaram a colheita.

“É uma realidade que desmotiva muitos, mas, para outros, serve de incentivo para se reinventarem, criando experiências, como o oleoturismo, que são novas no Brasil e nos permitem criar uma cultura do azeite”, disse Ana Beloto, degustadora, colunista e especialista em marketing, que vem divulgando marcas de azeite na região há 18 anos.

“Precisamos avançar na educação para que as pessoas conheçam, valorizem e consumam bons azeites — um caminho que não é fácil, mas é totalmente possível”, acrescentou ela.

A poucos quilômetros dali, Carla Borriello explicou que a produção em Minas Gerais aposta na diferenciação. Ela já conseguiu introduzir seu azeite, o Borriello, em alguns dos restaurantes mais importantes de São Paulo.

Seu problema não é vender o azeite, mas sim o pequeno volume que consegue produzir — a previsão é de apenas 2.000 litros em 2020. Ela acredita que há grandes oportunidades para os produtores de azeite no país, que, apesar de ter um consumo per capita muito baixo (menos de um litro), conta com uma grande população urbana disposta a pagar por qualidade.

Em um mercado dominado por marcas industriais de baixa qualidade, observou ela, há uma oportunidade de aproveitar a alta qualidade da produção local.