Talvez você não devesse fazer nada em relação a essa tosse

Pesquisadores revelaram que moléculas sensoriais, localizadas na garganta humana, mas não na boca, interagem com uma substância química presente em azeites de oliva de alta qualidade, causando uma sensação bem perceptível

Há anos, o azeite extravirgem é degustado e avaliado com base em sua capacidade de produzir uma sensação de formigamento ou ardência na parte posterior da garganta, partindo-se do princípio de que quanto mais a pessoa tosse, melhor é a qualidade do azeite. Agora, os cientistas apresentaram evidências que corroboram esse método de degustação e explicam por que ele funciona.

Em um artigo publicado hoje no Journal of Neuroscience, pesquisadores revelaram que moléculas sensoriais, localizadas na garganta humana, mas não na boca, se ligam a uma substância química encontrada em azeites de alta qualidade, causando essa sensação muito perceptível.

A ideia de estudar o azeite de oliva surgiu pela primeira vez para o coautor do artigo, Gary Beauchamp, há cerca de 10 anos, quando ele estava visitando a Itália para participar de um encontro sobre gastronomia molecular, um campo emergente que estuda a física e a química da culinária.   Um amigo trouxe-lhe um pouco de azeite extravirgem recém-prensado para provar e um gole causou “uma sensação muito estranha”, disse Beauchamp, diretor do Monell Chemical Senses Center, na Filadélfia. “É uma sensação de queimação na garganta, mas não na boca.”

A descoberta não apenas confirma uma tradição milenar, mas também aprofunda o debate sobre os atributos do azeite de oliva que promovem a saúde. Durante o estudo, os pesquisadores descobriram que, quando o ibuprofeno triturado era engolido e entrava em contato com a garganta, criava a mesma sensação que o oleocanthal, o agente indutor de tosse presente no azeite de oliva. Os cientistas agora acreditam que suas descobertas podem lançar mais luz sobre o desenvolvimento de medicamentos anti-inflamatórios.

Mas por que essa sensação deveria ser sentida na garganta e não na boca não
foi totalmente compreendido até que os pesquisadores voltaram sua atenção para uma molécula específica sensível ao sabor chamada TRPA1, conhecida por reagir a poluentes nocivos e substâncias químicas encontradas em alimentos como wasabi, mostarda e alho.

Concentrando-se na molécula TRPA1, os cientistas iniciaram testes para localizar sua presença no corpo. Ao realizar biópsias de tecido em vários voluntários, eles descobriram que a TRPA1 estava praticamente ausente do tecido da boca e da língua, mas presente em grandes quantidades na parte superior da garganta e no nariz, o que foi “... uma grande surpresa”, disse Beauchamp. Embora outros produtos químicos nocivos sejam detectados por muitos receptores diferentes, parece que o oleocanthal só pode ser detectado pelo TRPA1 e é por isso que é mais sentido na garganta quando se provam azeites extravirgens de alta qualidade.

Beauchamp levantou uma questão relacionada, observando que os seres humanos passaram a apreciar a “dor” causada pelo oleocanthal no azeite de oliva, como se houvesse um conhecimento interno de que isso é benéfico. “Como isso acontece continua sendo um enigma fascinante”, disse ele.

A equipe descobriu que o TRPA1 também detecta o ibuprofeno, que não tem relação química com o oleocanthal. Beauchamp acredita que será na compreensão da correlação entre esses dois diversos combatentes da inflamação que novas pistas para o desenvolvimento de melhores medicamentos anti-inflamatórios poderão ser encontradas.